quarta-feira, 16 de setembro de 2015

41º Capitulo - « Thaís! Ele não pode nascer! »

Acordar assim, naqueles braços com aquele calor e perfume tão característico dele, foi sem dúvida o melhor que me tinha acontecido nos últimos tempos. Larguei-me dos seus braços que me agarravam, dando-me aquela proteção que eu tanto precisava, e sentei-me cruzando as pernas.
O meu vestido permanecia no mesmo sítio que eu o tinha deixado, sobre a cadeira que também continha a roupa do Mario. Abri a segunda gaveta da mesa-de-cabeceira do meu lado. Não era só a cama que eu conhecia bem, como disse o Mario, mas também cada gaveta e cada recanto daquele quarto. Retirei de lá uma camisola, vestindo-a, já que estava apenas de roupa interior.
Olhei para a mesa-de-cabeceira novamente, com intenção de pegar no meu telemóvel mas reparei na carta. A carta que eu lhe tinha dado. A carta que eu lhe tinha escrito, estava ali.
 Peguei nela, e retirei o papel do envelope. Olhei para o Mario certificando-me que ele ainda dormia. Abri aquela folha de papel que estava dobrada em três. Enquanto relia a primeira frase abanei a cabeça, como poderia eu ter escrito aquilo com destino a uma outra? Como seria se ele algum dia arranjasse outra?
- Lê – assustei-me com a voz do Mario, ainda bastante arrastada à causa do sono.
- Não… - falei abanando a cabeça.
- Eu nunca a li e acho que não há melhor pessoa para ma ler do que tu – esfregou os olhos e compôs-se de forma a olhar-me sem grandes esforços com o pescoço – mesmo que eu tivesse uma namorada eu nunca lhe entregaria essa carta por isso…lê, lê para mim por favor.
Assenti com a cabeça, olhei para aquele papel e ganhei coragem para ler, ler para ele.


Não te conheço e por mais que tenha consciência que a decisão de deixá-lo foi minha, eu odeio-te. Odeio-te porque vai ser a ti a quem ele vai abraçar e limpar as lágrimas quando as derramares.
Quero dizer-te que ele provavelmente vai demorar a esquecer-me e vão ser muitas as vezes que te vai tratar por «Tha», não é por mal, apenas o fará porque era assim que me tratava quando queria pedir alguma coisa ou desculpar-se de algo.
Ele é um homem completo e por mais que tenha razão vai ser sempre o primeiro a ceder. É capaz de te dar o silêncio como resposta algumas vezes mas vai sempre ter-te no pensamento.
Quando te deitares ao pé dele vais ter das melhores sensações do mundo, vais sentir-te protegida, acolhida e o mais importante, vais sentir-te amada.
Ele adora cozinhar mas nunca o vai fazer sem que tu lho peças. É casmurro e quando mete uma ideia na cabeça vai ser complicado de lha tirar! Se há coisa que ele valoriza mais neste mundo é família e se não gostares da mãe dele ou do irmão mais novo a vossa relação vai ao chão.
É capaz de confiar em ti de olhos fechados mas terá sempre receio que não confies nele.
Ouve, se ele é o homem da tua vida faz de ti a mulher da vida dele. Ele só quer que o ames da forma que ele é, que o respeites e nunca duvides do seu amor.
Peço-te uma coisa: nunca o magoes porque isso é o pior erro que podes cometer. Fá-lo feliz porque tenho a certeza que ele te vai fazer a ti.
Conta-lhe sempre o que sentes, ele vai-te ajudar a resolver os problemas. Sê forte porque se fores fraca como eu…não irá correr bem.
Aquece aquele coração e faz com que ele volte a ser o Homem que foi comigo por mais que eu o tenha magoado, sei que essa pessoa ainda existe.
Diz que o amas vezes sem conta, ele não é romântico por natureza mas quando ama a sério começa a sê-lo involuntariamente.
Faz dele o homem mais feliz do mundo e dá-lhe o verdadeiro valor.

- Viste? – retirou-me aquela folha de papel das mãos e rasgou em dois, quatro e em oito bocados. Fez sinal para que eu lhe desse o envelope e assim o fiz, em seguida colocou todos aqueles bocados dentro dele e colocou o envelope na sua mesa-de-cabeceira – vamos esquecer isto – falou por fim, com uma voz muito mais viva que há pouco – vamos esquecer que algum dia escreveste aquela carta, vamos esquecer todas as complicações que surgiram nos últimos tempos, vamos…
- Não – abanei a cabeça olhando depois para ele seriamente – por mais que queramos esquecer tudo isso não o podemos fazer, sabes? Eu mudei Mario, por muito que te custe aceitar, tudo mudou.
- E o que me disseste ontem? E o beijo? E esta noite em que dormiste ao meu lado? Queres-me fazer acreditar que em todos estes momentos quem estava ao meu lado era uma Thaís mudada? Que já não me ama? – levantou o seu tronco e sentou-se na cama, virado para mim.
- Não é isso que eu quero dizer – expliquei, agarrando-lhe uma mão – eu quero dizer que…em todos esses momentos tu conseguiste trazer a Thaís de volta mas…eu não quero voltar a ser essa Thaís…
- Não queres? Como assim não queres?
- Essa Thaís é muito leve, e ainda pensa que todos os problemas se resolvem num estalar de dedos. Essa Thaís é pouco madura e é demasiado egocêntrica. Essa Thaís é convencida – olhei para ele, vendo o espanto estampado no seu rosto – acha que qualquer homem a tem que desejar e acha que tem o namorado na mão e que nada nem ninguém pode afetar a relação deles só se for…a ex-namorada dele – vi um ligeiro sorriso no seu rosto, ele sabia bem de que Thaís estava eu a falar, ele sabia bem que no fundo eu era assim – mas aconteceu algo na vida dela, que por muito mau que tenha sido, a fez tornar em alguém diferente.
- Tu…
- Sim. Esta Thaís é bastante diferente. Tenho medo, muito medo e tenho principalmente medo…de ti – admiti.
- De mim? Porquê de mim? – perguntou num misto de confusão e espanto.
- Neste momento és o meu inalcançável. És quem eu quero mas ao mesmo tempo…a cada vez que dou um passo na tua direção é como que recebo um choque. Que me abala e me fere. Por isso tenho medo, e sei que neste momento por muito que eu queira o teu carinho o melhor é não ter. O melhor é ficar longe de ti – passei uma das minhas mãos pelo seu rosto – como eu te amo, Mario – sussurrei – como me custa ter que te afastar sem o querer…
Deixou cair a sua cabeça sobre o meu peito. Não o podia magoar. Não podia voltar para ele e depois não conseguir ser a mulher que ele precisa que eu seja.
- Eu sabia que isto era demasiado fácil. És primeira mulher que eu amo desta maneira e também estás a ser a primeira a fazer-me sofrer desta maneira…
- Desculpa… - pedi acariciando o seu cabelo. Desencostou a sua cabeça do meu peito e olhou-me – mas é melhor assim…
Levantou-se da cama e vestiu uns calções, deu a volta a cama parando depois à minha frente. Aqueles segundos em que nos olhámos com tamanha intensidade, fez-me acreditar que o nosso amor não morreria. Não pelo menos até eu conseguir voltar a ser a mulher que o Mario precisa.
Estendeu-me a sua mão que eu agarrei. Fez a força suficiente para eu me levantar da cama e o seguir no seu percurso até à cozinha, supus.
Parei na escada e o Mario virou-se para trás e olhou-me como que me perguntando porque tinha eu parado. Continuava a ouvir aquele barulho estranho. Ele tinha-me garantido que estávamos os dois em casa sozinhos.
- O que é que se passa?
- Ouve – pedi, esperando que ele fizesse silencio e também ouvisse o barulho.
Para meu espanto a Astrid apareceu ao fundo da escada. Afinal estava alguém em casa, porque é que ele tinha dito que não? Olhou-nos e sorriu. O seu sorriso fez-me sorrir também, como eu gostava daquela mulher.
- É a minha mãe – olhei-o. Sim, eu sei que é a mãe dele – que estava a fazer barulho, quero eu dizer. Agarrou novamente a minha mão e acabamos de descer as escadas – bom dia, mãe.
- Bom dia, Mario – depositou um pequeno beijo na testa da Astrid. Só naquele pequeno gesto, se via o quanto ele amava aquela mulher.
Olhei para ela, o Mario largou-me a mão e segui até à cozinha. Já não a via há algum tempo. Olhou-me de alto a baixo para depois me voltar a sorrir.
- Estás com boa cara – aproximou-se de mim e colocou uma das suas mãos na minha cara – sentes-te melhor?
- Muito melhor. Obrigada por tudo – abracei-a e não consegui evitar que algumas lágrimas me escorressem pelo rosto.
Talvez tudo tivesse uma razão para acontecer na vida. E assim sendo o distúrbio alimentar não aconteceu em vão. Havia uma razão que certamente eu iria descobrir.
- Muito bem! – a voz do Mario apareceu e larguei a Astrid, para depois olharmos as duas para ele – conseguiste roubar um abraço à enjoada da minha…amiga, a mim nem um beijo me deu!
- Mentiroso… - sussurrei, limpando as lágrimas e abrindo um sorriso.
- O Mario aprendeu a cozinhar o teu prato favorito! – disse a Astrid surpreendendo-me.
- Mãe, isso não era para dizer!
- Mas agora já disse! Vou começar a preparar o almoço – deixou-nos sozinhos e o Mario olhava-me provavelmente à espera que eu dissesse alguma coisa.
- Fico feliz – comecei, aproximei-me dele com prudência – espero vir a provar o meu prato preferido, feito por ti, em breve.
Afastou-me o cabelo deixando o meu pescoço nu e desprotegido. Aproximou-se ainda mais de mim com o meu consentimento. Colou os seus lábios ao meu pescoço fazendo-me tremer. Afastei-me dele. O facto de me sentir desejada naquele momento, atrapalhou-me.
- Vamos com calma… - sussurrei.
- Sim – deu-me um leve beijo na bochecha e depois olhou-me – vamos com calma…

O almoço decorreu calmamente. Descobrir que o Mario sabia que a sua mãe viria, apenas não me disse não sei bem o porquê.
Por mais que tentasse comer não conseguia. Não tinha fome, sentia-me enjoada. Por vezes sentia-me assim,…ainda.
- Tha, ainda não comeste nada…
- Mario, por favor – a Astrid olhou-o repreendendo-o – não a pressiones – ele baixou a cabeça e a Astrid olhou-me – não gostas, Thaís?
- Não, não. Está bom a sério…é só que…sinto-me um pouco enjoada.
- Queres sopa? Se calhar comes melhor a sopa…
- Não, não é preciso. Talvez só se fosse uma fruta, pode ser que consiga comer.
- Maçã – disse o Mario – ela adora maçãs.
A Astrid levantou-se da mesa, provavelmente buscar a fruta que eu tinha pedido.
- Desculpa – a mão do Mario pousou sobre a minha e olhei-o – eu só quero o teu bem.
- Eu sei, eu sei Mario – beijei-lhe o rosto, perto dos seus lábios.
- Volto para Munique amanhã e tu?
- Ainda não sei, acho que ainda tenho umas coisas a resolver por aqui. Não tenho tido as melhores atitudes tanto com a Halle como com a minha mãe. Depois disso voltarei para Munique.




- Oh meu Deus! – a Halle gritou e eu tremi. Olhei para ela. O sofrimento estava estampado no seu rosto. Estávamos na urgência da maternidade, estava na sentada numa cadeira de rodas enquanto não chegava a obstetra.
Estávamos em casa dela. Na verdade estávamos a preparar o jantar enquanto não começava o jogo da seleção com a Geórgia. Pouco tempo antes de terminarmos o jantar a Halle tinha sentido umas picadas, na realidade já as andava a sentir durante todo o dia mas não ligou.
- Thaís! Ele não pode nascer! – continuava a gritar, nunca a tinha visto neste estado. Agarrou-me o braço e puxou-me para junto dela. Baixei-me e ela olhou-me, parecia desesperada – ele só devia nascer em abril! Estamos em março!
- É quase abril, Halle – tentei acalmá-la mas parece que só fiz pior.
- O Marco não está aqui!
- Pois não, olha está ali a jogar – falei apontando para uma televisão que estava na parede.
- Thaís! – gritou novamente o que me levou a pensar que ser mãe era uma experiência bastante dolorosa – sinto a minha bexiga a rebentar e não é só a minha bexiga!
- Eu vou chamar uma enfermeira, talvez seja melhor.
- Não! – deteve-me agarrando o meu braço com alguma força – não me deixes por favor!
- Calma, eu não te deixo – assegurei. Uma enfermeira passou por mim mas quando a tentei chamar esta desviou-se atendendo outra grávida.
- Eles disseram que a minha médica vinha já mas eu não a vejo em lado nenhum! Oh meu Deus! – voltou a gritar, e a agarrar a minha mão com uma força enorme.
- Aqui está a minha grávida favorita – uma mulher jovem, alta e loira com a pele bastante branca aproximou-se de nós – parece que o Isaac quer nascer antecipadamente.
- Não pode ser, Keila! O Marco está ali! – apontou para a televisão e a rapariga olhou para lá.
- Não podemos atrasar isto, Halle. Se o Isaac quer nascer, o que podemos nós fazer? – colocou-se atrás da cadeira de rodas e começou a empurra-la – vamos, ainda quero fazer uma ecografia. Pode haver sempre a hipótese de ele ainda não estar na posição cefálica. A última vez que fizemos a ecografia não estava por isso…
- O que é que queres dizer com isso, Keila?
- Calma, futura mamã – acalmou-a, passando uma das suas mãos pelos ombros dela – vamos lá fazer a ecografia.

Acabei por me sentar num dos bancos esperando pela Halle. As últimas palavras que ouvi da sua obstetra assustaram-me. Podia o Isaac ainda estar na posição pélvica o que implicaria problemas. O meu conhecimento sobre gravidezes e partos é básico mas sabia que algo podia não correr bem.
- Thaís não é? – a tal Keila saiu da sala e olhou-me – a Halle tem falado muito de si. O bebé está na posição cefálica e o parto vai ser agora ela já tem uma boa dilatação e perguntou se queria assistir.
- Hum, sim claro – respondi um pouco atordoada.
- Então pode-se ir desinfetar e vestir, a enfermeira acompanha-a – falou apontado para uma senhora já com alguma idade que me sorriu.

- Eu estou aqui – agarrei a mão da Halle que respirava aceleradamente.
- Avisaste o Marco?
- Ele está a jogar Halle…
- Pois…sim é verdade – parecia um pouco desiludida.
- Mas deixei-lhe uma mensagem – assegurei, vendo um pequeno sorriso surgir no meio de tanta dor.
- E já estamos a ganhar – a obstetra entrou na sala de partos – golo de Marco Reus.
- Filho da mãe! – a Halle falou gritando em seguida, provavelmente uma contração. Agarrou-me em seguida a mão e voltou a gritar.
- Parece que está com muita pressa este menino.
O suor escorria-lhe já pela cara. Via-a a sofrer ali à minha frente. Enquanto a Keila lhe pedia para fazer força eu imaginava-me naquele lugar. A ter um filho. O meu filho. Algum dia iria isso acontecer?
Ouvi aquele choro intenso e o último grito da Halle.
- Que miúdo tão gorducho – falou uma das enfermeiras.
- Sai ao Mario – olhei para a Halle espantada, não percebia como com seguia ter aquele sentido de humor depois de passar por uma experiência tão dolorosa como aquela.
Uma das enfermeiras colocou o Isaac nos braços da Halle. Começou a chorar de uma forma que me fez chorar a mim. Era o filho dela. Um ser tão pequeno, inocente e tão precioso.
- Obrigada – agarrou a minha mão – obrigada por teres estado aqui ao pé de mim, neste momento tão difícil.



- É mesmo lindo, não é? – a Halle fez-me aquela pergunta assim que peguei no Isaac.
- É – admiti – mas prepara-te porque o Mario é estupido e vai dizer que parece um extraterrestre!
- Ai dele!
- Toma – a muito custo retirei o meu telemóvel do bolso e entreguei-lho para a mão – liga ao Mario e põe em alta voz, por favor.
Ela assim o fez e passado algum tempo, ele finalmente atendeu a chamada.
- Tell me something!
- I need to know… - cantei ao entrar na brincadeira.
- Then take my breath
- And never let it go
- Oh por favor! Parem de cantar! – pediu a Halle, levando-me a rir – já me estão a enervar!
- Ei! Calma Halle, essas hormonas estão todas alteradas.
- Ah pois estão, acabou de ser mamã é normal – informei – mas passando ao que interessa, sabes quem é que eu tenho nos braços? O Isaac! – não esperei que ele respondesse, e manifestei logo o meu entusiasmo.
- Sabes quem é que eu tenho à minha frente? Uma gaja mesmo boa!
- Faz boa viagem até ela mas não tropeces!
- Estás a fazer-me ciúmes porque estás aí com o puto nos braços e eu aqui!
- Ele é tão lindo, Mario.
- Sim, os bebés costumam ser lindíssimos quando nascem! Deve parecer um extraterrestre!
- Ai Mario Götze! O meu filho não parece nenhum extraterrestre! – manifestou-se a Halle.
- Calma Halle, ele daqui a uns meses já fica mais parecido com uma pessoa – ri-me, olhando para a Halle que estava com cara de poucos amigos – por acaso a minha mãe disse que eu era bonito quando nasci!
- A Astrid é uma querida sabes, amor? Porque de certeza que eras feio – atirei.
- Não era não!
- Demoram muito? – perguntou a Halle impaciente.
- Claro que demoramos muito, ainda nem apanhamos o voo para aí! Halle aguenta, nós vamos ainda chegar hoje e vamos conhecer o miúdo.
O menino mexeu as mãos e assustei-me com aquilo, não estava habituada a ter um bebé nos braços muito menos assim, recém-nascido.
- Halle, pegas nele? – pedi, passando-lhe o Isaac para os braços.
Tirei o telemóvel de alta voz e caminhei até à janela do quarto.
- Agora a verdade – pedi em voz baixa para a Halle não ouvir aquela conversa.
- Hum, não sei se ta digo.
- Anda lá, Mario.
- Dez minutos e estamos aí.
- E o Marco?
- Está meio parvo, nem fala nem nada.
- Se calhar está a ansioso para ver o Isaac.
- Talvez seja isso.
- Vou desligar e vou para junto da Halle, beijinho até já.
- Até já. Estou cheio de saudades tuas, amo-te.
- Eu também fofinho.
Desliguei a chamada e sentei-me novamente junto da Halle.
- É tão bom estarmos assim os quatro todos juntos, e agora somos cinco – falou sorrindo-me.

Acordei sobressaltada não reconhecendo o sítio onde estava. Aquele sonho tinha sido no mínimo estranho. Eu e o Mario estávamos juntos naquele sonho! Estávamos felizes. Abanei a cabeça, tirando todos aqueles pensamento. Ajeitei-me no cadeirão, estava no quarto da Halle.
Levantei-me e percorri o pequeno caminho em silêncio até à cama onde estava a Halle deitada. Junto dela estava o Isaac no berço. Era verdadeiramente encantador.
Senti uma mão na minha perna e virei-me de repente, assustada.
- Credo, que susto Halle!
- Pensavas que eu estava a dormir, não era?
- Era… - sentei-me na cama junto dela – estás um bocadinho inchada.
- Isso é a tua forma carinhosa de me dizeres que estou gorda?
- Não! Mas estás inchada na cara.
- Deve ser de alguma coisa que me deram para as dores. No meu estado normal saberia o quê mas estou demasiado cansada e dorida, dormiste pelo menos esta noite?
- Hum…não – admiti, sabendo que com ela não conseguia mentir – depois de sair daqui, falei um bocadinho com a minha mãe e troquei de roupa e aqui estou eu! Pronta para encher de mimos este Isaac!
- Queres-lhe pegar?
- Quero muito – olhei para o berço onde estava deitado a dormir, sorri ao vê-lo tão calmo.
- E estás à espera de quê?
- De coragem. É tão frágil e tão pequenino.
- Anda lá madrinha sexy, pega nele! – incentivou a Halle levando-me a rir.
- A madrinha nada sexy vai pegar nele – cheguei-me perto do berço e inclinei-me – mas…é tão pequeno!
- Já me estás a enervar! Se eu estivesse sem dores eu levantava-me e ia aí. Dava-te uma chapada e punha-te o Isaac nos braços!
- Acalma lá essas hormonas recém-mamã! – pedi – é o teu bebé, é tão precioso.
Ganhei finalmente coragem e peguei no Isaac. Tentei ter todos os cuidados com a sua cabeça e fui devagarinho até à cama da Halle, sentei-me junto dela e sorri ao ver como era bom tê-lo nos meus braços.
- É sossegadinho, pelo menos nas suas primeiras horas de vida foi – fiz algumas caricias na sua bochecha e não se mexeu – sabes se o Marco vem? Se já apanhou o avião para aqui?
- Não fofa, não sei de nada. Sabes bem que eu e o Mario não falamos muito e…
- Calma – interrompeu – calma, a sério.
- Queres que eu ligue ao Mario?
- Não é preciso! – aquela voz sobressaltou-me tanto a mim como à Halle. Olhámos de imediato para a porta. O Mario acabava de entrar com o Marco – chegámos!
- Fala baixo, Mario! – barafustou a Halle em baixo tom – o Isaac está a dormir!
- Desculpa Halle – pediu aproximando-se de mim – é bonito – falou, abrindo um sorriso.
- Basta não ser teu filho para ser bonito! – atirou a Halle.
- Olha que ela está toda cheia de piada! – o Mario riu-se ironicamente – não te doem as mamas?
- Doem! E muito! – respondeu.
- Então preocupa-te com as tuas mamas e deixa-me disfrutar deste momento com o teu filho. 
Dei-lhe algum espaço junto de mim. Sentou-se e colocou um braço em torno da minha cintura. Com a outra mão que estava livre mexeu na bochecha do Isaac e olhou-me.
- É tão pequeno, não é? – perguntou. Deu-me um beijo na bochecha e encostou a sua testa ao meu pescoço – eu sinto tanto a tua falta…
- Mario, agora não – sussurrei. Sentia um enorme desconforto na minha barriga. Tinha medo de dizer que também sentia a falta dele mas a verdade…, a verdade é que sentia e muito - Marco? – chamei. Estava perto da Halle, fazia-lhe algumas carícias na mão – está aqui o teu filho, acho que já é altura de o conheceres.
- O meu filho estava a causar aí um efeito em vocês…que decidi nem interromper – foi caminhando na nossa direção. Nem eu nem o Mario nos dignámos a responder àquela insinuação dele.
- Toma – levantei-me e com todo o cuidado coloquei o Isaac nos braços dele – apresento-te, Isaac Reus o teu filho.
O Mario agarrou a minha mão e arrancou-me daquele quarto levando-me para o corredor sem que eu me pudesse impor.
- Preciso de falar contigo – começou. Compôs o cabelo e olhou-me, sorrindo em seguida – sabes quanto tempo durou o nosso namoro?
- Creio que… - como é que é possível ter demorado tão pouco? – cinco, seis meses mas…porque é que estamos a voltar a esta conversa?
- Ok, não sei como é que vais reagir a isto mas eu acho que está na altura de dizer ao mundo o que se passou entre nós.
- O quê? Como assim o que se passou entre nós?
- Acho que está na altura das pessoas saberem a verdade. Que tu não me traíste nem eu te tratei mal.
- Nunca ligaste ao que as revistas dizem, Mario.
- Não fui só eu que fiquei mal visto com isto tudo, tu também ficaste.
- Não me interessa o que…
- Thaís! – interrompeu-me – tu amas-me?
- Sabes bem que sim, Mario.
- E vamos tentar que a nossa relação volte…a ser uma relação?
- Não sei…tem que ser com calma, sabes muito bem que ainda não me sinto bem e…
- Não é isso que eu te estou a perguntar. Eu estou a perguntar-te se queres tentar. Eu espero o tempo que for preciso por ti, entendes?
- Tu não mereces esperar esse tempo tudo por alguém que nem sabes se vai voltar a ser a pessoa que tu amas.
- Para! Por favor, não digas essas coisas – pediu agarrando as minhas mãos – eu vou ter uma entrevista amanhã e um dos assuntos vai ser a minha vida pessoal, certamente. Ainda por cima é em direto e… - fez uma pausa e encostou-se à parede – a pergunta é fácil, queres que eu diga a verdade sobre tudo ou continue a esconder este assunto?
Fiquei a olhá-lo por algum tempo. Dizer a verdade implicava muitas coisas, mas na realidade ia ser um peso a sair-me de cima. Iam-se acabar as mentiras e as especulações.
- A verdade, quero que digas toda a verdade Mario.