segunda-feira, 10 de agosto de 2015

40º Capitulo - « não passas de uma miúda mimada »

- Então é aqui que tu vives? – não me tinha vestido, não me tinha sequer penteado. Fiquei apenas deitada à espera que ele viesse.
- Hum-hum – sentei-me no sofá, ainda de pijama, cruzei as pernas e fiquei a olhá-lo – senta-te, Mario – convidei, apontando para o espaço ao meu lado.
- Está tudo bem?
- Mario, não te ponhas com rodeios por favor. Vai direto ao assunto.
- Tenho medo da tua reação, não sei se irás reagir bem a isto e isso assusta-me.
- O que é que fizeste?
- Nada…quer dizer, fiz mas…foi a pensar em ti.
- Fala de uma vez – pedi, começando a ficar nervosa.
- Há uns meses…quando ainda estávamos juntos, eu tentei procurar os teus pais biológicos.
- O quê? – não podia estar mais espantada e confusa ao mesmo tempo.
- Houve uma altura em que te senti muito em baixo, talvez no início do que…tu tiveste – talvez não fosse só a mim que me custasse falar no assunto. Senti um desconforto enorme no Mario ao proferir aquelas palavras – e eu pensei que seria bom se encontrasses os teus pais biológicos. A tua mãe deu-me as informações que tinha e a partir disso fui em busca do desconhecido.
- E…?
- Consegui dois nomes. Sandra é o nome da tua mãe biológica e…
- Calma – pedi interrompendo-o – isto é demasiado, sei que parece pouca informação mas saber o nome da minha mãe biológica já é algo bastante forte – descruzei as pernas e sentei-me normalmente – como é que tu…?
- Ouve Tha – e voltava-me a chamar «Tha», colocou as suas mãos sobre as minhas – isso não interessa, sim? Interessa que tenho estas informações e achei que o melhor era dar-tas. Mas a pergunta importante é: tu queres estas informações?
- Não sei – levantei-me e andei pela sala, olhando sempre para ele – qual é o outro nome? – perguntei por fim.
- Acelin – respondeu – foi quem te entregou ao orfanato…


 ***


- Estás pronta? – não, claro que não. E ainda nem me lembro bem porque é que eu devia estar pronta.
A minha mãe entrou no quarto, já pronta pelo que me parecia. Olhou-me de cima a baixo.
- Porque é que ainda não estás vestida? A Cíntia está quase pronta.
Dei alguns passos, ainda descalça, em direção ao vestido. Não me parecia perfeito, na verdade não se adequava a mim em nenhum aspeto.
- Thaís! – chamou-me à atenção enquanto eu avaliava cada detalhe daquele vestido.
- O quê, mãe? O que é que se passa? A tua filha vai-se casar hoje, não é? Vai ter com ela, ajuda-a a preparar-se mas por favor, deixa-me sozinha.
Fez aquela cara estranha mas acabou por sair do quarto fechando a porta. Sentei-me na cama e cruzei as pernas, aquele vestido continuava a não ser perfeito.
A realidade é que o meu vestido não precisava de ser perfeito. Afinal era o casamento da Cíntia não o meu. Era o batizado do filho da Cíntia, não o do meu filho.
E ela, passados todos aqueles anos longe de nós, lidava com tudo como se nada tivesse acontecido. Voltou a entrar na nossa vida, e por mais que eu goste dela, não consigo lidar bem com isto.
- Posso? – a Halle, também ela já pronta, espreitava à porta do meu quarto – a tua mãe disse-me que estavas complicada hoje.
Tinha um vestido claro, com um laço que lhe caía sobre a barriga enorme.



- Senta aqui – pedi apontando para o meu lado.
- Vá desembucha, o que se passa? Andas sem apetite? Como é que está o teu peso?
- Ei, ei – coloquei a minha mão na sua perna para ela parar – está tudo bem nesse aspeto é só que… - acho que me ia custar muito dizer o que eu sentia – já viste? A Cíntia vai-se casar hoje e também vai batizar o filho dela, aqui, em Dortmund. Não é…estranho?
- Ela ter vindo e te ter roubado a mãe? – olhei para ela espantada – não negues, tens 22 anos mas sem bem que ainda precisas muito da Minna, e agora mais do que nunca porque não tens o Mario para te dar amor quando precisas.
- Mas…é estranho não é?
- É…talvez, não sei. Mas deixa de ser egoísta, por favor.
- Egoísta?
- Sim, é o que estás a ser. Hoje é o dia da Cíntia, deixa-a vivê-lo. Ela sente-se em casa aqui.
- Ela está no quarto de hóspedes, Halle. Ela nem sequer tem um quarto nesta casa!
- Então para quê este alarido todo da tua parte? Ela vai-se casar, tem um filho…Thaís, ela está a construir a vida dela.
- Certo, então o problema está em mim?
- Está! Porque neste momento só queres saber de ti.
- Eu tive um distúrbio alimentar, eu acabei com o Mario, eu estou frágil, porra!
- Primeiro de tudo, tu não tiveste um distúrbio alimentar, tu ainda tens porque ainda estás em tratamento. Segundo, só acabaste com o Mario porque quiseste, eu sei que tiveste os teus motivos mas a decisão foi tua! E terceiro, tu estás frágil quando te convém.
- Como assim? O que é que queres dizer com isso?
- Quero dizer que andaste toda divertida com o Mauro nos últimos dias, Thaís. Não estavas frágil nesses momentos? Já não pensavas no Mario nem no problema que tens?
- Já estás a misturar as coisas.
- Não estou, não. Tu precisas de abrir os olhos mas não sou eu que o vou fazer.
- Olhem quem está aqui – a minha mãe abriu a porta e vinha com o filho da Cíntia ao colo – olha a tia Thaís ali, vamos ter com ela? – caminhou na minha direção e colocou-me o Noah, era assim o nome dele, nos meus braços – toma conta dele e…veste-te por favor, daqui a pouco estão a chegar os convidados.
Saiu do quarto segundos depois. Olhei para o miúdo que não parava quieto no meu colo e começava a chorar, não devia gostar de mim. Era o comum!
- Toma – entreguei-o à Halle que me olhou séria – treina, que daqui a um mês e meio já tens o teu para cuidar.
- É teu sobrinho!
- E peço desculpa mas ainda não sinto qualquer tipo de afeto por essa criança.
- Não te entendo, juro que não, eu é que estou a grávida e tu é que andas cheia de mudanças de humor. Pareces bipolar, Thaís.
Ela lá fez a magia e o menino parou de chorar. Ajeitou-o no seu colo e começou a caminhar pelo quarto.
- Sabes Halle? – olhou para mim atenta – já não me sinto atraente.
- Por causa de teres perdido peso?
- Não sei mas…não me sinto confiante. Dantes quando passava ao pé de um homem adorava olhar para trás e ver que ele me olhava, mas agora sinto que se olhar para trás ele está a olhar para o outro lado ou a falar ao telemóvel, sem que tenha sequer reparado em mim.
- Sempre gostaste de te sentir desejada, não é? – acenei com a cabeça – tenho a certeza que ainda és desejada, isso são só coisas da tua cabeça.
- Tomara eu que fosse – voltei a caminhar na direção do vestido – não me apetece nada vestir este vestido. Não me apetece sair deste quarto. Nem me apetece ter que ir para o meio daquela gente mostrar a minha felicidade pela minha irmã se ir casar – parecia que me tinha ignorado completamente, mexia nas bochechas no Noah – o Marco?
- Ficou lá em baixo, disse que ia ligar ao Mario para saber se ele demorava.
- O quê? – perguntei perplexa – o Mario vem ao casamento da Cíntia?
- Eles conhecem-se…ou não?
- Sim mas…
- Então…? É normal que ele tenha sido convidado.
- Mas ela podia não o ter convidado, não é? Nós acabámos…
- E então? – interrompeu-me – Thaís! É o casamento da Cíntia, percebe isso de uma vez por todas! São os convidados dela! É o casamento dela! É o dia dela, deixa de ser egoísta! 


(Halle)

- Vês como estás tão gira? – a Thaís saía da casa de banho já vestida, maquilhada e com o seu cabelo arranjado – o verde realça os teus olhos, Thaís.
- Já estás a ver coisas onde não existem – ainda não reage bem aos elogios…
- Como queiras – levantei-me da cama, com o Noah nos meus braços – mas o vestido fica-te mesmo bem – aquele verde combinava com o tom de pele dela, com os olhos e deixava-a elegante. Sobretudo com aquele trabalhado nas costas e sendo assim tão fluido.



- Vamos descer? – perguntou-me.
- Sim, por mim podemos descer.
- Sabes se…
- Não, o Mario ainda não chegou.
- Eu não ia perguntar isso, Halle! – passou à minha frente, abrindo a porta – eu ia perguntar se sabias se a Cíntia estava pronta.
- Era mesmo?
- Era!
- Então eu não sei, não. Mas, se calhar, não.
- Vamos para baixo, então – saímos do quarto, descendo até à sala. Já lá estavam algumas pessoas, provavelmente seriam todas da família dos pais da Thaís, mas não conhecia a maioria deles. A não ser a Evelyn e os pais da Minna – eu vou ter de ir falar a esta gente toda?
- Se calhar, Thaís… – falávamos as duas baixo, à medida que nos aproximávamos do Marco.
- Eu já venho ter convosco, então – largou-me o braço, indo na direcção dos avós maternos. Enquanto isso, eu aproximei-me do Marco, ainda com o Noah nos braços.
- Toma – passei o menino para ele, sentando-me no sofá.
- Já andas-te a treinar? – perguntou ele, sentando-se a meu lado.
- Eu sinto que estou mais que preparada para quando ele nascer – levei as minhas mãos à barriga, sentindo-o bastante agitado hoje – está irrequieto hoje.
- Anda a praticar pontapés de bicicleta aí dentro – o Marco riu-se, levando, também, a sua mão à minha barriga
- Olá meninos! – super sorridente, a Evelyn apareceu junto a nós – essa barriga não pára de crescer?
- Parece que não – levantei-me, cumprimentando a Evelyn – o Roman, não foi convidado?
- Digamos que a minha querida sobrinha se esqueceu do pormenor que tinha namorado.
- A sério?
- Não – ela riu-se – ele tinha um compromisso de família, também.
- Por acaso tinha – comentou o Marco – e até queria levar a Evy.
- Pois queria, mas isto aqui tem coisas mais interessantes para analisar – agarrou a minha mão, olhando-me séria – como é que anda a nossa Thaís?
- Está estranha…já estiveste com ela?
- Sim. Não está nada confortável com este ambiente.
- Não está mesmo.
- Vamos ter de fazer alguma coisa – a Evelyn olhou para o Noah, sorrindo – ele é parecido com a Cíntia.
- Também acho – olhei para ele – e a Thaís não consegue ter uma ligação com ele.
- Ainda não?
- Não…
- Pode ser que hoje seja um bom dia para ela – a Evelyn piscou o olho, pegando no Noah – vamos ter com a tia Thaís! – olhei para a Evelyn que me sorriu.
Caminhou pela sala, enquanto eu me sentei. Reparei que ia direita à Thaís e brincado com o Noah.
- A Evelyn sabe o que está a fazer, certo?
- Eu acho que sim, Marco.
Achava mesmo aquilo. Mas sabia que poderia não correr bem. Enquanto a Evelyn esteve com o Noah ali perto da Thaís, ela manteve-se sempre a olhar para o sobrinho. Sem nunca se aproximar dele. Sorria-lhe e até tentou tocar-lhe nas mãos, mas não o fez. Talvez o medo não lhe possibilitasse fazer aquilo.

- Há aí espaço para mais uma? – perguntou a Thaís surpreendendo-me. Não estava à espera que aparecesse assim tão de repente. Ainda há pouco estava ao pé da Evelyn.
- Eu não sei se te dou espaço – disse, a brincar como sempre, o Marco.
- Não queres dar espaço, não dês! – olhou para mim – tens mais um egoísta!
- Eu estou a brincar, Thaís.
- Oh, olha que essas brincadeiras não são nada engraçadas – o Marco afastou-se, dando possibilidade à Thaís para se sentar a meu lado. Levou logo as suas mãos à minha barriga, ficando a olhar para ela – ele hoje está muito agitado, não está?
- Um bocado. Não anda habituado a festas.
- Se, ao menos, isto fosse uma festa como deve ser.
- Thaí…
- Sim, Halle, já sei. É o casamento da minha irmã. Mas isto torna-se estranho para mim.
- Com o passar das horas vai deixar de ser estranho, vais ver – fazia pequenos círculos e linhas retas sobre a minha barriga e, confesso, aquilo sabia tão bem que quase me dá vontade de dormir. E ao Isaac também, que já estava a acalmar. Acho mesmo que ele acalma só com a voz da Thaís – esse teu mimo ao teu sobrinho já começa a fazer efeito.
- Ele vai preferir a tia Thaís a partir do momento que respirar pela primeira vez.
- Vai sonhando! – atirou o Marco e, naquele momento, parecia que tínhamos a Thaís de sempre ao pé de nós. Com aquele sorriso brilhante e ternurento nos lábios, o sorriso que lhe é tão característico.
O Noah, que estava ao colo do Marco já que, assim que o meteram no chão, gatinhou até ele…tem um poder sobre as crianças ótimo para o futuro. Todos o adoram.
- Ainda não percebi como é que o miúdo gosta de ti – atirou a Thaís.
- Ele gosta de toda a gente. É bastante social o teu sobrinho, Thaís.
- Olha, comigo não é! – ela virou-se para o Marco, agarrando na mão do Noah. O menino olhou-a, acredito que estaria espantado com aquele gesto, assim como eu também estava – será que, aos olhos dele, pareço um zombie e lhe meto medo?
- Porque raio estás a dizer isso? – perguntei.
- Oh…eu estou diferente. Já não tenho aquele ar simpático de Thaís, onde todos os miúdos vinham ter comigo – ela tinha a noção disso.
- Oh cala-te – o Marco deu-lhe um encontrão – não sejas convencida porque nunca tiveste esse ar – ela riu-se, passando com a sua mão na bochecha do Noah. O menino sorriu, gargalhou mesmo e a Thaís repetiu o gesto.
A campainha tocou e lá foi alguém abrir a porta. E pronto, lá se foi o sorriso dela. Era o Mario.
- Eu vou ver se a Cíntia está pronta – pegou no Noah ao colo, subindo logo de seguida, as escadas até ao andar de cima.
O Mario aproximou-se de nós, vinha a rir-se. Ou já fez alguma ou estava mesmo bem-disposto.
- Olhem que bonecos tão giros! – sentou-se no meio de nós, dando uma palmada na minha perna e outra na do Marco. Está mesmo bem-disposto – quem era aquela giraça que subiu as escadas?
Olhei para o Marco e ele para mim. Como assim ele estava a fazer aquela pergunta?
- Mas tu já andaste nos copos antes de vires para cá? – perguntou-lhe o Marco.
- Eu não, porquê?
- Porquê? – ele olhou para mim e pude ver que ele estava confuso – Porque aquela giraça que estava a subir as escadas é, nada mais, nada menos, que a mulher que amas.
- Uau. A Thaís está mesmo gira – ele encostou-se ao sofá, permanecendo a olhar para mim – eu só a vi de costas…e o vestido não lhe favorece nada o rabo!
- Talvez porque o rabo dela já não está como tu o conhecias.
- Se ela estivesse ao pé de mim, resolvíamos esse assunto juntos – por mais brincalhão que fosse, por mais disparates que saíssem daquela boca, uma coisa era certa: o Mario sempre a quis ter perto dele em todos os momentos. Mas soube respeitá-la, respeitar os seus pedidos e não o podemos condenar por isso.
- Se ela estivesse ao pé de ti, aposto que até já tinham feito um filho! – atirou o Marco.
- Não, Marco – comentei, antes que o Mario pudesse dizer qualquer coisa – todos sabemos que, para fazer um filho, eles dois iam precisar de mais de um ano de treinos.
- Só porque a parte dos treinos são melhores! – comentou o Mario.
Fez-se silêncio na sala. A Thaís descia com o Noah ao colo, seguia-se a Minna e depois a Cíntia. Estava muito bonita. Com um vestido estilo princesa, com tule e um corpete cheio de pedras brilhantes.
No momento em que a Thaís colocou os seus pés no chão da sala, olhou para o Mario. Foram poucos segundos, mas foi o suficiente para ver um sorriso envergonhado formar-se nos lábios dela. Olhei para o Mario que parecia estar petrificado a olhar só para ela.

- Estava a ver que nunca mais acabavam as fotografias! – atirou a Thaís, assim que chegou perto de mim. Tratava-se daquelas típicas fotografias ainda tiradas em casa com a família.
- Sempre gostaste de fotos, Thaís!
- Isso foi noutros tempos – olhou-me, séria – Halle, sê muito sincera comigo.
- Como sempre fui e sempre serei. Diz.
- Achas que estou bonita?
- A noiva é sempre a mais bem vestida nestas ocasiões. Mas, depois dela, vens logo tu. Thaís, por mais que seja tua amiga, eu sei dizer-te as coisas como elas são. Sei que é difícil e estranho para ti tudo isto, mas aproveita. Relaxa...
- Eu não sei se consigo. Só a presença do... – percebi que lhe custava continuar a frase. Levei as minhas mãos aos ombros dela, abraçando-a.
- Eu sei que não gostas de abraçinhos, mas eu gosto. E, se não te sentes bem com ele por perto, deixa-o para lá.
- Estás a aconselhar-me para dar chega para lá ao Mario? – ela olhou-me, com uma cara super estranha, quase como se tivesse acabado de dizer alguma asneira.
- Eu estou porque só te quero ver bem, mesmo que não concorde com isso.
- Obrigada, Halle – levou as mãos à minha barriga, voltando a formar aquele sorriso – a gravidez deixou-te chata, mais melga, mas tens dito coisas que poucos dizem. Obrigada, a sério.
- Não tens nada de agradecer. Eu sempre disse que essa palavra deveria ser banida entre nós duas.
- Pois dizes, dizes – ela olhou à volta, voltando a olhar para mim – sabes…estou aliviada por a Cíntia não me ter dado um papel de destaque. Tipo madrinha, dama de honor e essas coisas. acho que não me iria sentir bem.
- Se calhar, ela teve essa percepção das coisas.
- Donzelas! – o Marco aproximou-se de nós – está na hora de irmos para a igreja. Tu vens connosco, Thaís.
- Vou?
- Sim – respondeu-lhe – ou queres ir no carro da tua irmã, com as damas de honor?
- Não, não. Ir com vocês está ótimo!


- A Thaís está estranha – comentava o Marco – já olhaste bem para ela? – agarrou-se à minha barriga, por trás, apontando para a Thaís.
Andava pelo salão onde decorria o copo de água, como que procurando alguém que não encontrava. Já se tinha cruzado com o Mario mas afastava-se sempre dele.
- Isto é demasiado para ela. A Thaís não está preparada para estas coisas – comecei a vê-la vir na nossa direcção.
- Quando é que isto acaba?
- Thaís…
- Halle, estou cansada. E já comemos, já dançamos isto podia acabar.
- Até parece que tens seis anos e é o primeiro casamento a que vais – atirou o Marco – és mulherzinha, irmã da noiva por isso tens de aguentar até ao fim.
- E tu pensas que mandas em… – aquilo acabaria com “mandas em mim”, mas assim que viu o Mario aproximar-se saiu disparada, indo ter com a mãe.
- Eu meto assim tanto medo?
- Um bocado, Mario – decidi brincar com a situação – estás com um ar de delinquente e cheiras mal.
- Se não fosses uma senhora e grávida, eu dizia-te quem é que cheira mal. Ela...ela está bem?
- Não – respondeu prontamente o Marco – devias agarrar nela, levá-la até lá fora e abrir-lhe de uma vez por todas os olhos. Por mais que a Thaís nos diga que está bem, ela não está! – bem, por esta é que eu não esperava.
- Ela não me deixa aproximar dela…
- Ela está a ser parva – disse – ela quer imenso estar contigo. Isso nota-se, ela está sempre, sempre a olhar para ti quando estás de costas para ela – o Mario riu-se procurando-a – mas ela não está preparada para estar contigo.
- Eu aposto que, se me afastar de vocês, ela volta cá – o Mario não esperou que disséssemos nada e afastou-se.
Olhei para a Thaís e ela aproximou-se. Tal e qual como o Mario previu.
- A Cíntia disse para vos agradecer por terem vindo. E que estás muito bonita, Halle.
- Obrigada. E não é preciso agradecer nada – ela entrelaçou as suas mãos, olhando para o Mario.
- Ele…ele está bom?
- Devias fazer-lhe essa pergunta e ele – disse.
- Também tu? Já a minha mãe me diz o mesmo! Será que não entendem que eu não consigo? Que, talvez, eu não queira falar com ele?
- Porque tens medo do que possa acontecer. Sim, eu sei disso.
- Então não insistam, porra! Eu ainda não percebi bem o que é que ele aqui está a fazer! Desde quando é que ele conhece assim tão bem a Cíntia para vir ao casamento dela? – aí está! Ela tem ciúmes por a Cíntia o ter convidado. Ela tem ciúmes por a Cíntia voltar à vida delas e a Minna ter de dividir a sua atenção entre as duas.
- Eles são amigos, Thaís – respondeu-lhe o Marco – tal como tu és amiga do Mauro e foste à festa em casa do Mario com ele.
- Também tu a insistires nessa coisa do Mauro? – não disse mais nada e limitou-se a ir ter com a Cíntia. Com a Cíntia…foi ter foi com o Noah, sentou-se no chão ao pé dele, brincando com os brinquedos dele. Aquele gesto não seria normal na Thaís...não esperava aquilo tão cedo. O Mario aproximou-se, rindo-se.
- O que é que eu vos disse?
- Olha, eu não sei é porque é que te estás a rir – atirou logo o Marco – se ela não tem coragem para estar no mesmo sítio que tu, a culpa não é só dela – soltou-me e, não sei porquê, acho que o Marco está mesmo revoltado com tudo isto – a culpa é tua porque ainda não tiveste coragem, não tiveste vontade de homem para seres frontal com ela e esclarecerem de uma vez por todas a situação. Porra, ela precisa de ti e tu já admitis-te que a amas.
- Mas a Thaís não me quer ao pé dela – disse o Mario.
- Mario – ele olhou-me – ela só não te quer ao pé dela porque ela não se sente a mesma. Porque não é a mesma e tudo isto, o dia de hoje, está a deixá-la confusa. Está nas tuas mãos decidires se está ou não na hora.
Olhamos todos para ela, vendo-a a rir-se com o Noah enquanto o rodopiava no ar.

(Thaís)

Caminhei para o exterior, havia uma pequena varanda junto da sala onde estávamos.
Março havia chegado já com algum sol mas ainda frio. Março era um mês com imensas recordações, imensos acontecimentos passados.
Sentia-me confusa, a cada vez que dava um passo e pensava que estava a avançar na minha vida, surgiam novas dúvidas e problemas com os quais eu não sabia lidar.
Se há uns meses acabar com o Mario me pareceu o melhor, agora acho que foi um erro. Preciso dele mais do que nunca mas não o quero perto, não o consigo ter por perto. São estes os sentimentos que nem um psicólogo nos ajuda a entender nem lidar. Toda esta confusão que sinto me deixa sem perceber que rumo hei de dar às coisas.
Sentei o Noah no meu colo. Olhava para ele e começava a ver a Cíntia. Uma irmã, uma confidente, uma amiga. Como era possível, eu ter sido tão egoísta e ainda o estar a ser?
- Thaís? – a Cíntia aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado.
- Ainda vais sujar o vestido – avisei.
- Já está sujo – colocou uma das suas mãos na minha perna – ele gosta de ti…desculpa…
- De quê?
- Não sei mas sinto que tenho que te pedir desculpa, acho que sentes que entrei na tua vida e passei a ser o centro do mundo mas…
- Cala-te lá – pedi, vendo depois um sorriso na cara dela – o problema é comigo não contigo, sabes? – agarrei umas das suas mãos, segurando o Noah só com uma – quero que sejas feliz, sim? Estás casada com o Ian, têm o Noah e…sê feliz.
- Nunca te agradeci – passou os seus dedos sobre a minha tatuagem no pulso com o «C» - obrigada, foi preciso coragem para a fazeres e amor também.
- O sentimento que tenho por ti não mudou, és minha irmã…eu é que mudei e…é complicado…
- Vou-te deixar sozinha – pegou no Noah e levou-o para dentro juntamente com ela.
Peguei no meu telemóvel e verifiquei que tinha duas mensagens do Mauro. Numa perguntava-me se estava tudo a correr bem e na outra perguntava-me quando é que voltava para Munique.
- Pareces uma adolescente agarrada ao telemóvel – olhei assustada para trás, verificando que o Mario se encontrava atrás de mim.
Sentou-se junto a mim sem pedir qualquer tipo de permissão. Já não falávamos há vários dias, desde que ele me deu todas aquelas informações sobre a minha família biológica. Olhou-me, talvez me fosse dizer algo ou talvez não…
- Estavas a falar com o Mauro?
- Não me chateeis – pedi, virando-lhe a cara.
- Estás a trabalhar?
- Não – voltei a olhar para ele. Não estava a entender aonde queria ele chegar com aquela conversa - porquê?
- Porquê pergunto eu! – certo, desta não estava eu à espera. Nos seus olhos via uma certa revolta – Tu que sempre foste rapariga de gostares de viver às tuas custas, não estás a trabalhar? – voltou a perguntar, levantando agora um pouco o tom de voz.
- Não tenho cabeça para isso, agora.
- Não tens o quê? Por favor! Mas já tens cabeça para andar a treinar com o Mauro e estar com ele – tudo se resumia ao Mauro, impressionante como todos o usavam para me atacar.
- Porque é que toda a gente mete o Mauro na conversa? Podes parar de falar dele? O Mauro não é para aqui chamado! – falei, um pouco descontrolada.
- Tudo bem, deixemos o Mauro de lado – olhou-me como que desafiando-me – achas correto com 22 anos, estares a viver à custa dos teus pais? Ainda eles cederam aos teus caprichos todos, porque podem claro. Tens uma casa em Munique, estás a viver uma bela vida…tudo à custa dos teus pais, não tens vergonha?
- Não estou a perceber qual é a tua, Mario! Já te esqueceste do que eu tive? E que foi por essa razão que acabámos?
- Não, não claro que não me esqueço – cruzou as suas mãos, olhou para o céu e depois voltou-me a encarar – só acho que devias ser um bocadinho mais mulher e enfrentar os problemas, passaste a usar a anorexia como desculpa para tudo! Já passaram 7 meses!
- Será pedir muito alguém que me entenda? – perguntei descontrolada.
- Sim. Eu não te entendo. Mas sabes? – olhou-me nos olhos, não posso negar que naquele momento só tinha vontade de derramar umas quantas lágrimas. A pessoa que eu amava estava-me a dar um sermão enorme, estava a tratar-me com uma frieza tal que chegava a magoar – se precisares de quem te ajude a ultrapassar isto, te apoie, mesmo que não entenda os teus ideais, eu estou aqui – a sua expressão mudou, forçou um pequeno sorriso e olhou-me, via desilusão, acima de tudo, naquele olhar. Eu tinha-o desiludido - Estarei aqui mesmo achando que, neste momento não passas de uma miúda mimada, que usa o problema que tem como desculpa para tudo.
Fiquei a olhá-lo sem saber o que dizer, o que fazer ou como reagir. Esticou-me a sua mão e agarrei-a, fez-me sentar numa das suas pernas e fez-me uma ligeira carícia na bochecha.
Naquele momento, deixei que todos os maus pensamentos se afastassem e que o Mario ocupasse o centro do meu mundo. Naquele momento esqueci-me de tudo e acabei por ceder quando este colocou uma das suas mãos no meu pescoço e aproximou os seus lábios dos meus, unindo-os num beijo carregado de saudade mas muita mágoa.
Afastei os meus lábios dos seus assim que, colocou a sua mão sob a minha camisola, entrando em contacto com a minha pele.
- Obrigada por estes segundos em que revivi a minha Thaís – falou, enquanto passava os seus dedos pelo meu rosto.
- Posso-te pedir uma coisa? – perguntei com algum receio. Assentiu com a cabeça, mas com uma expressão bastante estranha – eu sei que vai parecer estranho e parvo e estás no teu direito de me recusar este pedido mas…
- Fala lá… - agarrou a minha mão, beijando-a em seguida, dando-me assim a coragem que eu precisava para falar.
- Dormes comigo, hoje?
A primeira reação que teve foi olhar-me perplexo. Realmente não era algo que eu devesse ter perguntado. Estava a pensar em arrepender-me quando o Mario se começou a rir, o típico riso dele que também me faria rir noutras situações, mas não nesta.
- Desculpa – pediu, colocando depois uma expressão mais séria – teve uma certa piada entendes? Estamos separados e quando estávamos juntos o que mais fazíamos era dormir juntos e…pois, não estás a entender mas tem a sua piada, acredita – olhei-o, esperando uma resposta que nunca mais chegava – mas claro, achas que ia recusar uma proposta dessas?
- Mas…
- Eu sei, é desnecessário dizeres que vamos unicamente dormir, eu já sei. É melhor em minha casa, os meus pais não estão cá e…é melhor.
- Continuas a ter medo do meu pai?
- Talvez…sem dúvida que é melhor irmos para minha casa, tu até já conheces a cama.
- E…podemos ir, agora?
- Agora? Mas…ainda falta cortar o bolo e…
- Por favor – supliquei.
- Tudo bem, vamos lá então – levantei-me do seu colo e olhei-o – tu sabes que eu gosto de bolo, não sabes?
- Sei, sei que gostas de tudo o que engorda.
- Então e…não me vais deixar comer o bolo?
- Mario – olhei para ele, que sorria. O ambiente entre nós tinha ficado tão…respirável, de repente – comes amanhã, deve sobrar.
- Não sobra não. Eu já topei que esta gente é toda…
- Gorda como tu? – interrompi, rindo em seguida. A cara que fez foi bastante cómica. Decerto não esperava aquela reação da minha parte, a verdade é que nem eu esperava conseguir brincar com ele.
- Dormes no tapete – colocou uma mão no peito – magoaste-me, sabes?
- Tenho uma ligeira noção disso – falei, desta vez olhando-o séria – e talvez te deva um pedido de desculpas, mais um…
- As desculpas serão pedidas e aceites, todas a seu tempo – levantou-se e colocou um dos seus braços em torno dos meus ombros, enquanto caminhávamos para o interior olhei-o, um olhar bastava para que ele percebesse o que me ia na cabeça – certo, é melhor não irmos assim – retirou o seu braço de torno dos meus ombros – vamos despedir-nos deles e vamos, então.