terça-feira, 10 de novembro de 2015

42º Capitulo: "Porque não gosto de ter só uma namorada"

- Podem parar de mexer no meu filho? – tanto eu como o Mario olhámos para o Marco assustados. Estava com uma voz autoritária!
- Olha, qual é a tua? – perguntei em tom sério.
- A minha é que vocês ainda não largaram o meu filho, saiam daqui! Vão-se embora desta maternidade, por favor! – olhou-nos sérios por uns segundos, para depois abrir um sorriso e se rir na nossa cara – estou a brincar! – voltou a fazer cara séria – não, não estou. Não podem ir embora e dar-nos um momento em família?
- A Halle está a dormir! – observou o Mario.
- Pois está, vão-se embora – voltou a repetir.
- Ouve lá. Eu estou preocupada – coloquei uma das minhas mãos sobre o ombro do Marco – tu não nos queres mesmo aqui ou…?
- Deviam ir… - começou a fazer um gestos estranhos na minha direção e na do Mario – não sei, resolver as coisas.
- Mas nós não temos assuntos pendentes – disse. Acabei por me encostar ao ferro no fundo da cama a olhar para ele.
- Olha Mario o que eu não faço por ti! – atirou aquilo do nada, e fiquei confusa a olhar para ambos. O que é que se passava ali? – ouve, Thaís – colocou as suas duas mãos nos meus ombros e sorriu-me forçadamente – o teu amigo… - olhou para o Mario com uma expressão nada feliz – ele quer falar contigo, entendes? Mas como lhe faltam uns órgãos, que nós sabemos quais são, não tem coragem para te pedir para saíres daqui com ele.
- Ah – fui até à cadeira, retirando de cima dela a minha mala – já percebi! – olhei para o Mario tentando descobrir no que pensava. Avancei depois na direção da Halle dando-lhe um beijo na testa. Dormia serenamente tal como o Isaac – então, vamos…? – propus caminhando em direção à porta do quarto.
- Mas voltem! – disse o Marco. Abanou em seguida a cabeça olhando para o Mario – és tão atado, realmente – falou baixo mas eu percebi o que ele disse apenas lendo-lhe os lábios.
- Ele não era assim! – aproximei-me do Mario e arrisquei-me a abraça-lo por trás, colocando as minhas mãos em torno da sua cintura – porque é que tens medo, agora?
- Eu não tenho medo… - respondeu-me – estava tudo a correr na perfeição até o Marco se fartar deste tiki taka.
- Então…vamos? – perguntei encostando a minha testa às suas costas. O Mario não respondeu nada e começou a andar para o exterior do quarto – Oh Marco, já agora – olhei para trás, olhando para ele – não lhe faltam órgãos nenhuns, pelo menos…não lhe faltavam!
- E continuam a não faltar, sua estúpida! – olhou para mim, parecia chateado! Comecei a rir-me graças à expressão maravilhosa com que ficou.
- Não sei Mario, não sei. Sabes bem que não falo do que não sei.
- Mas tu sabes!
- Não sei nada!
- Quem te ouvir falar até parece que nós éramos daqueles namorados que nem sexo tinham!
- Oh que vergonha! – dei-lhe uma cotovelada. Tinha acabado de entrar no quarto a médica da Halle, de certeza que ela tinha ouvido aquilo! Reparei que ela tinha vontade de rir e que talvez só não o fazia porque parecia mal – nós já estávamos de saída, não era?
O Marco acenou-nos com a mão e acabámos por sair os dois do quarto.
- Vamos para onde? – perguntei agarrando uma das mãos do Mario e encostando a minha cabeça ao seu ombro.
- Tens cá o teu carro?
- Sim, tenho.
- Então vamos a algum café no centro de Dortmund, pode ser? – parou e eu olhei para ele sorrindo.
- Sim, pode.


O facto de ninguém dizer uma só palavra estava a deixar aquele momento bastante constrangedor.
- Eu queria que voltasses a viver comigo, Thaís – colocou a sua mão por cima da minha que permanecia em cima da mesa. Passei a mão pelo cabelo ajeitando-o.
- Eu ainda preciso de tempo.
- Eu queria tanto que voltasses a viver comigo.
- Eu só volto a viver contigo se o Fabian se for embora daquela casa! – o Mario começou a rir. Eram esses os meus objetivos: ele rir e o ambiente aliviar.
- Eu acho que ele até gosta de ti, sabes?
- O Felix gosta mais, certamente.
- Sim, sem dúvida. Tem uma namorada agora.
- Hum, que bom! Como é que se chama?
- Maria – respondeu. Mexeu no telemóvel durante uns segundos mostrando-me depois a foto de uma rapariga loira bastante bonita com os seus 15/16 anos.
- É muito gira – comentei – agora és a ovelha negra da família. O Fabian namora com a Kristina, o Felix com a Maria…e tu Mário Götze?
- Eu namorava com a Thaís, lembraste dela?
- Hum-hum. Era boa rapariga, não era?
- Sem dúvida alguma que o era! E agora vou tentar recuperar a Thaís, achas que consigo?
- Acho que tens grandes probabilidades de conseguir! – levou uma das suas mãos ao meu rosto, acariciando-o – quando vais para Munique?
- Por mim ia amanhã mas como tenho a entrevista também amanhã, o melhor era ir hoje à noite, e tu?
- Eu estava a pensar ir amanhã mas tenho o carro por isso vou de carro…queres ir comigo, hoje à noite – ele sorriu-me e expliquei-me – eu ia amanhã mas se for para ter a tua companhia faço o sacrifício de ir hoje.
- Adorava fazer-te companhia.
- Só com a condição de conduzires metade do caminho!
- Temos acordo, menina Thaís – falou esticando-me a sua mão que eu agarrei sem hesitar.


A viagem com o Mario para Munique correu bem. Falámos sobre tudo o que havia para falar mas a verdade é que não resolvemos tudo o que havia para resolver. Porquê? Boa pergunta!
Apesar da sua insistência para o acompanhar até casa e jantar com ele preferi não o fazer. Continuava a sentir-me estranha junto dele. Ao lado dele não me conseguia definir. Tanto era a nova Thaís como por vezes era a velha. Ele tinha a capacidade de trazer ao de cima o passado e me fazer ser quem eu era.
No meio de todos estes pensamentos havia uma coisa, era tarde e eu sem dormir. É o que acontece às pessoas que pensam demasiado no passado. Peguei no telemóvel e liguei ao Mauro…quase por instinto.
- Então miúda, já és madrinha? – questionou assim que atendeu.
- Parece que sim.
- E de onde vem esse bom humor todo? brincou.
- Podias vir cá?
- Não sei, depende do que tiveres aí para me dar. Sabes bem que sou interesseiro.
- Eu preciso de falar…
- Eu sou PT não sou psicólogo!
- Mauro… - eu sabia que ele estava a brincar, claro que estava, mas a minha disposição para brincadeiras estava a níveis negativos.
- Bem, já vi que a coisa é séria. Eu ia agora sair mas passo por aí.
- Não te quero estragar a noite, atenção.
- Não estragas nada, não sejas parva. Olha 5 minutos, pode ser?
- Sim, obrigada.


- Diz-me lá o que se passou – abri-lhe a porta, ele entrou e fechou-a. Seguimos até ao sofá, coloquei as minhas pernas por cima das suas. O à-vontade que sentia com ele era imenso mesmo.
- Passou-se muitas coisas – comecei – primeiro: o Issac nasceu, segundo: o Mario vai ter uma entrevista amanhã onde vai falar do meu distúrbio alimentar e…
- Espera aí – tinha feito uma cara estranhíssima – ele vai contar…? A toda a gente…?
- É o melhor, não?
- Não sei, Thaís. Tu vais ficar muito exposta, sabes disso, não sabes?
- Mas…o que é que queres que eu faça? Mais tarde ou mais cedo as pessoas vão saber. Há revistas que já especulam isso.
- E tu achas que é melhor ser o Mario a fazê-lo? O teu ex-namorado a contar a toda a gente o que se passou contigo?
- Sei lá! – coloquei a minha cabeça no seu ombro dele – já te disse que és muito atraente?
- Não, ainda não tinhas dito isso. – respondeu a rir.
- Porque é que não tens uma namorada?
- Porque não gosto de ter só uma namorada.
- O quê? – perguntei confusa.
- Uma namorada, eu por mim tinha duas ou três, agora uma…isso não é para mim de todo.
- És muito parvo porque às vezes não sei se estás a falar a sério ou a brincar.
- Estava a falar bem a sério agora.
- Não estavas nada!
- Estava sim – puxou-me para o seu colo e colocou o seu braço em torno dos meus ombros – quando é que voltas para o Mario?
- Oh, deixa de ser parvo, também! – pedi, dando-lhe uma palmada no peito – achas que devo?
- Não sei, tu é que sabes.
- Preciso de alguém que me aconselhe, Mauro.
- O meu conselho é: vai viver com ele que a tua vizinha já deve estar farta de te andar a oferecer almoços.
- Mas…e se corre mal?
- E porque há de correr mal, diz-me lá – pediu, acariciando-me o rosto.
- Eu sou muito complicada, não sou?
- Eu não te queria para minha namorada, isso te garanto!
- Parvo! – ripostei. Começou a fazer-me algumas cócegas o que me levou a rir sem parar. Fez-me lembrar o Mario, quando ele me fazia cócegas acabávamos a correr pela casa para depois eu me render e me deitar no sofá já cansada.
- E agora? Saímos os dois?
- Não sei se me apetece - sentei-me direita no sofá e olhei-o – acho que prefiro ficar em casa a preparar-me para amanhã.
- A entrevista é em direto?
- Acho que sim – sorri-lhe e ele como sempre retribuiu-me aquele sorriso – obrigada por isto.
- De nada, piolha – levantou-se do sofá e ajeitou o cabelo – agora vou sair se não te importas – passou uma das suas mãos pelo meu cabelo e beijou-me a testa – porta-te bem, qualquer coisa liga-me.
- Obrigada, porta-te tu bem!
Piscou-me o olho e dirigiu-se à porta. Agora só me restava dormir bem esta noite e esperar pela incógnita do dia de amanhã.




- Está tudo bem? – perguntou assim que eu atendi a sua chamada como não me disseste mais nada ontem.
- O que é que querias que eu te dissesse, Mario?
- Não sei. Algo não lhe respondi e fez-se um silêncio enorme entre nós estou a sentir-te distante, o que é que se passa?
- Estou nervosa. É-te suficiente?
- Eu também estou, acredita. Preciso que me faças um favor.
- Que é…?
- Falas com o David?
- O Alaba? – questionei intrigada.
- Sim. Ele está lesionado e tu tens jeito para falares com pessoas, sabes?
- Achas? – perguntei bastante espantada.
- Tenho a certeza. Tu não notas, mas consegues ser direta e ajudar as pessoas ao mesmo tempo.
- Se tu o dizes…onde é que ele está? No centro de treinos?
- Isso mesmo. Já agora amanhã vens ao meu jogo? Eu arranjo-te companhia.


O facto de voltar àquele centro de treinos foi no mínimo estranho. O Mario não estaria ali. A esta hora estava-se a preparar para a entrevista certamente.
Caminhei pelo corredor até chegar à sala onde eles costumavam estar com o fisioterapeuta e os massagistas.
- Hello – falei encostando-me à porta.
- Olá – o David olhou para mim juntamente com o fisioterapeuta que me saudou.
- Aqui? – perguntou ele – a fazer o quê, diamante brilhante? – comecei a rir-me, dado que aquele era um dos nomes que os colegas do Mario me costumavam chamar – tens andado desaparecida!
- Bem, eu vou indo. Acabas o trabalho, Thaís? – perguntou-me o fisioterapeuta rindo-se. Bem, ele sabia o meu nome, eu é que não sabia o dele. Já o conhecia das poucas vezes que vinha ao centro de treinos – como estão a Alicia e a Luna? – pois bem, ele até tinha sido coordenador delas no estágio.
- Bem, creio – respondi. Acabou por se ausentar e deixar-me ali com o David - como vamos ser íntimos até te vou começar a tratar por David e não por Alaba, que achas?
- Acho ótimo.
- Quanto tempo?
- 7 semanas – respondeu colocando as mãos sobre os seus olhos. Estava deitado naquela maca e coloquei as minhas mãos sobre o seu joelho.
- E agora eu acabo este trabalho, não é? – claro que não ia fazer nada. Eu acho que até tinha um certo pânico.
- Estás à vontade – larguei o seu joelho e fiquei a olhar para ele. Como se lida com o facto de tirar um curso para exercer uma profissão e agora não o conseguir fazer? – o que se passa? – a sua voz libertou-me de todos aqueles pensamentos – o que se passa?
- Vamos à verdade? – perguntei. Recebi um aceno de cabeça como resposta – a causa do meu afastamento de tudo e todos, tem uma razão. Tive um distúrbio alimentar há cerca de 7 meses, ou melhor, como diz a minha psicóloga eu ainda tenho um distúrbio alimentar.
- A sério? – a cara de surpresa dele era enorme.
- Sim e também há uma razão para eu ainda não ter mandado nem um currículo ainda – respirei fundo e olhei para ele – e a razão é que eu tenho pânico a isto, o que não é normal, pois não?
Acabou por se levantar. Sentou-se na maca e eu fiz o mesmo, ficando ao seu lado.
- Pode ser só uma fase, Thaís.
- Será? E se não for? O que é que eu faço?
- Fala com a tua psicóloga, deve ser o melhor que tens a fazer.
- Eu não me sinto nada preparada para começar a exercer. Tenho medo, entendes?
- Não mas tento entender. E o distúrbio alimentar?
- Anorexia – esclareci – não sei porquê nem como mas aconteceu. E agora o futuro é completamente incerto.
- É para todos nós, não? – perguntou, dando-me uma palmada na perna – mais para uns que para o outros se calhar, mas incerto ele é.
- E bem – levantei-me e fiquei a olhá-lo – eu vim para aqui para te ajudar supostamente mas afinal és tu que me ajudas a mim.
- Foi o Mario que te pediu?
- Sim, foi. Ele gosta de ti – afirmei, sorrindo-lhe – e obrigada. Foi muito bom contar isto alguém, foi como que se um peso me saísse de cima.
- Acho que vou uns dias a Nova Iorque quando puder. Vai-me fazer bem para pôr as ideias em dia e estar longe disto. Sabes melhor que ninguém que o melhor a fazer quando temos algum problema é fugir.
- Então tu percebes? – questionei surpreendida – percebes que eu me tenha afastado daqui?
- Claro que percebo, Thaís. Agora que sei o que se passou não tenho como perceber. Só quem nunca teve problemas destes é que não sabe o quanto é bom afastarmo-nos de tudo e todos. Queres vir comigo?
- A Nova Iorque? – perguntei surpreendida.
- Sim, preciso de companhia.
- Eu acho que aceito. Obrigada – agradeci – obrigada mesmo.


Tinha o PC na pequena mesa da sala, estava em videochamada com a Halle. Ela já estava em casa com o Isaac.
- Ele dorme tanto, Thaís! – disse com um sorriso na cara – mas tem sido tão bom estar com ele e conhecer este pequeno ser feito por mim e pelo Marco. Vou-te mandar uma foto dele! – disse entusiasmada.
- Já começou a cena do Mario – falei concentrada na televisão.
- Já? E ele já falou do teu caso?
- Ainda não. Só falou do mundial e da carreira dele. Isto deve demorar.
- Hum, olha já mandei!
Peguei no telemóvel e abri a foto que ela me tinha mandado, era mesmo encantador o Isaac.


- Sim senhora, é mesmo bonito, Halle. Parabéns!
- Tens que vir cá.
- Ouve, o David convidou-me para ir com ele a Nova Iorque, o que achas?
- Quem? O Alali?
- Alali, Halle? – perguntei a rir.
- Sim é o nome dele com um toque de humor.
- Mas...diz-me lá o que achas?
- Não sei. Era suposto ter uma opinião sobre isso?
- Halle basta dizeres se achas boa ideia ou não.
- Eu acho. É capaz de te fazer bem para pores um fim a tudo. Desafio-te a deixares as inseguranças, os medos e tudo o que não é preciso em Nova Iorque.
- Vou tentar. Ainda não sei quando vamos mas isso é uma boa ideia.
- Ainda será melhor se a conseguires concretizar, acredita.
- Halle, chegou o momento – reparei que ela desviou o olhar do ecrã e eu fiz o mesmo, olhando para a televisão.
- Thaís Baden, não é um assunto proibido pois não? – ouvi o entrevistador perguntar.
- Não, de todo – sorriu e vi que estava com um à-vontade grande para a situação.
- Foi de repente que as coisas mudaram. Vocês acabaram a vossa relação, certo? – o Mario assentiu com a cabeça – a tua ex-namorada desapareceu das redes sociais e do mundo, e isso fez criar várias versões da história. E tu hoje estás aqui e vais contar a verdadeira versão, certo?
- Sim. Ambos achamos que está na altura de dar uma explicação. Nós sentimos que é o nosso dever explicar às pessoas que nos seguiram o que aconteceu.
- A Thaís foi acarinhada pelas tuas fãs?
- Sim, eu senti que sim. Desde o início que reparei que elas gostavam dela. Houve muitas que acharam o fim do mundo porque acabaram as probabilidades de eu casar com eles – todos se riram, eu inclusive.
- Foi bastante falado que foi muito rápido. Tinhas acabado a relação com a Ann e tinhas começado outra com a Thaís repentinamente. O que é que tens a dizer disto?
- Apesar de ninguém ter nada a ver com a minha vida pessoal, eu explico isto de uma simples forma. Fui feliz com a Ann, não digo que não, mas depois apareceu a Thaís que me fez ver o mundo com outros olhos. E aí eu percebi que não precisava de grande coisa para ser feliz, percebi que havia coisas que me faziam feliz e que eu não lhes dava importância nenhuma. Não sei se era esta a resposta que esperavam de mim mas é a que tenho para dar.
- Foi fácil conquistá-la?
- Não – ele riu-se – não foi mesmo nada fácil. Depois de a conhecer acho que não a convidei para sair mas se a tivesse convidado aposto que ela não tinha aceite, por isso tive que ir por outro caminho e aplicar outra estratégia.
- Ela não te queria?
- Ela afastava-me! – disse aquilo com uma cara séria, rindo-se em seguida juntamente com o entrevistador – primeiro pensei que era por eu ter mudado para o Bayern de Munique, porque ela é do Borussia de Dortmund…
- E foi?
- Não! Depois percebi que ela nem gostava de futebol. Acho que foi o destino a dizer-me para não desistir dela. O facto de ela me afastar foi um sinal.
- E parece tudo tão perfeito…o que é que aconteceu para tudo acabar?
- A dado momento houve uma mudança no comportamento dela e passado alguns dias descobrimos que a Thaís tinha um distúrbio alimentar. E por isso ela decidiu afastar-se de mim e de Munique e eu só tive que aceitar.
- Custou?
- Bastante. De um momento para o outro fiquei sem a minha namorada, a minha melhor amiga, a minha companheira.
- E agora? Como está a situação dela? Quanto tempo passou, mesmo?
- Passaram cerca de 7 meses. Ela está muito melhor e bastante bem.
- E vocês?
- Nós… - o Mario entrelaçou a mão uma na outra e sorriu ligeiramente – Não posso revelar muito mas estamos bem como amigos.
- Amigos?
- Sim. Só o futuro dirá mas amigos ficaremos certamente até porque a minha mãe gosta mais dela do que de mim – todos se riram, e eu acabei por me rir ali sozinha na sala. Olhei para o ecrã do PC vendo que a Halle fazia o mesmo – é uma força de expressão mas é quase verdade – finalizou ele.
- Achas que se ela não tivesse tido a anorexia vocês ainda estavam junto? Agora?
- Não tenho dúvidas nenhumas disso. Mas também não tenho dúvidas que o futuro será risonho para nós. Esta foi a prova que talvez o que sentimos um pelo outro seja mais forte do que pensamos. A vida pôs-nos à prova e agora o nosso dever é superarmos essa prova…e penso que está quase a ser superada.


- A sério que me vais deixar? No fim da declaração que fiz para o mundo inteiro? – o Mario ria-se enquanto me balança nos seus braços.
- Tem que ser! Além disso, não posso deixar o Alali ir sozinho, não é?
- Alali? – o Mario parou todo aquele balanço e olhou-me séria.
- A Halle chama-o Alali e até tem piada, não tem? – ele riu-se, olhando-me.
- Só tu – colocou as suas mãos no meu rosto e deu-me um beijo ternurento na testa – estás mais…solta!
- É bom, não é? – coloquei as minhas mãos nas suas costas e coloquei os meus lábios na sua bochecha – vem aí o David – falei apontando para trás dele.
- Anda lá, Thaís! – começou a barafustar – sabes que já chamaram para o voo, não sabes?
- Não sabia, não.
- Estás aí no blá blá blá com o Götze e daqui a pouco perdemos o voo!
- Que exagerado, Alali!
- Vou ignorar que acabaste de me chamar um nome das Arábias – pegou na minha mala e olhou para mim com a cara mais cómica de sempre – mexe esse rabo e vamos, anda lá! – deu-me um encontrão fazendo-me rir.
- Olha o Alali já me quer só para ele – ri-me e dei um beijo ao Mario pouco prolongado, já que em seguida levei outro encontrão do David.
- Anda lá! – voltou a barafustar. Pegou na minha mão e começou a arrastar-me com ele – vou-te comer a namorada em pleno Times Square!
- Atreve-te! – disse o Mario a rir. Realmente ele tinha uma grande confiança tanto em mim como no David para nos «deixar» ir sozinhos para Nova Iorque.
- Não ser no Central Park já é uma sorte! – disse-lhes – porta-te bem, Mario – dei um beijo na palma da mão e soprei depois na direção do Mario, piscando-lhe o olho – prometo que quando voltar as coisas serão diferentes – falei ao longe sorrindo-lhe.  



Olá!
E, não é que, dois anos depois cá estamos para celebrar o aniversário da Boundless Love? Pois é, faz hoje precisamente dois anos que esta história começou.
Hoje já conta com 42 capítulos (este incluído), mais de 12 550 visualizações e um total de 175 comentários. E, por isso, é importante agradecer a cada uma de vocês que ainda se mantém desse lado. Nem sempre é fácil manter uma regularidade ao publicar, mas é bom saber que ainda existe alguém desse lado a ler o que escrevo.
Neste ano que passou muita coisa aconteceu: desde as separações às reconciliações, um distúrbio alimentar e, ainda, o nascimento do bebé! Foi um ano onde (e pode dizer-se mesmo isto) tudo aconteceu de um pouco na vida dos protagonistas desta história. Acredito que, daqui para a frente, ainda muitas mais coisas podem (e vão) acontecer.
Têm sido dois anos a desafiar-me a mim mesma para vos trazer esta história mas tem valido a pena (espero)!
Bom, avançando! PARABÉNS BOUNDLESS!! Espero que tenham gostado deste capitulo e que deixem os vossos comentários. E, mais uma vez, obrigada a todas.
Um beijinho,
Mahina 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

41º Capitulo - « Thaís! Ele não pode nascer! »

Acordar assim, naqueles braços com aquele calor e perfume tão característico dele, foi sem dúvida o melhor que me tinha acontecido nos últimos tempos. Larguei-me dos seus braços que me agarravam, dando-me aquela proteção que eu tanto precisava, e sentei-me cruzando as pernas.
O meu vestido permanecia no mesmo sítio que eu o tinha deixado, sobre a cadeira que também continha a roupa do Mario. Abri a segunda gaveta da mesa-de-cabeceira do meu lado. Não era só a cama que eu conhecia bem, como disse o Mario, mas também cada gaveta e cada recanto daquele quarto. Retirei de lá uma camisola, vestindo-a, já que estava apenas de roupa interior.
Olhei para a mesa-de-cabeceira novamente, com intenção de pegar no meu telemóvel mas reparei na carta. A carta que eu lhe tinha dado. A carta que eu lhe tinha escrito, estava ali.
 Peguei nela, e retirei o papel do envelope. Olhei para o Mario certificando-me que ele ainda dormia. Abri aquela folha de papel que estava dobrada em três. Enquanto relia a primeira frase abanei a cabeça, como poderia eu ter escrito aquilo com destino a uma outra? Como seria se ele algum dia arranjasse outra?
- Lê – assustei-me com a voz do Mario, ainda bastante arrastada à causa do sono.
- Não… - falei abanando a cabeça.
- Eu nunca a li e acho que não há melhor pessoa para ma ler do que tu – esfregou os olhos e compôs-se de forma a olhar-me sem grandes esforços com o pescoço – mesmo que eu tivesse uma namorada eu nunca lhe entregaria essa carta por isso…lê, lê para mim por favor.
Assenti com a cabeça, olhei para aquele papel e ganhei coragem para ler, ler para ele.


Não te conheço e por mais que tenha consciência que a decisão de deixá-lo foi minha, eu odeio-te. Odeio-te porque vai ser a ti a quem ele vai abraçar e limpar as lágrimas quando as derramares.
Quero dizer-te que ele provavelmente vai demorar a esquecer-me e vão ser muitas as vezes que te vai tratar por «Tha», não é por mal, apenas o fará porque era assim que me tratava quando queria pedir alguma coisa ou desculpar-se de algo.
Ele é um homem completo e por mais que tenha razão vai ser sempre o primeiro a ceder. É capaz de te dar o silêncio como resposta algumas vezes mas vai sempre ter-te no pensamento.
Quando te deitares ao pé dele vais ter das melhores sensações do mundo, vais sentir-te protegida, acolhida e o mais importante, vais sentir-te amada.
Ele adora cozinhar mas nunca o vai fazer sem que tu lho peças. É casmurro e quando mete uma ideia na cabeça vai ser complicado de lha tirar! Se há coisa que ele valoriza mais neste mundo é família e se não gostares da mãe dele ou do irmão mais novo a vossa relação vai ao chão.
É capaz de confiar em ti de olhos fechados mas terá sempre receio que não confies nele.
Ouve, se ele é o homem da tua vida faz de ti a mulher da vida dele. Ele só quer que o ames da forma que ele é, que o respeites e nunca duvides do seu amor.
Peço-te uma coisa: nunca o magoes porque isso é o pior erro que podes cometer. Fá-lo feliz porque tenho a certeza que ele te vai fazer a ti.
Conta-lhe sempre o que sentes, ele vai-te ajudar a resolver os problemas. Sê forte porque se fores fraca como eu…não irá correr bem.
Aquece aquele coração e faz com que ele volte a ser o Homem que foi comigo por mais que eu o tenha magoado, sei que essa pessoa ainda existe.
Diz que o amas vezes sem conta, ele não é romântico por natureza mas quando ama a sério começa a sê-lo involuntariamente.
Faz dele o homem mais feliz do mundo e dá-lhe o verdadeiro valor.

- Viste? – retirou-me aquela folha de papel das mãos e rasgou em dois, quatro e em oito bocados. Fez sinal para que eu lhe desse o envelope e assim o fiz, em seguida colocou todos aqueles bocados dentro dele e colocou o envelope na sua mesa-de-cabeceira – vamos esquecer isto – falou por fim, com uma voz muito mais viva que há pouco – vamos esquecer que algum dia escreveste aquela carta, vamos esquecer todas as complicações que surgiram nos últimos tempos, vamos…
- Não – abanei a cabeça olhando depois para ele seriamente – por mais que queramos esquecer tudo isso não o podemos fazer, sabes? Eu mudei Mario, por muito que te custe aceitar, tudo mudou.
- E o que me disseste ontem? E o beijo? E esta noite em que dormiste ao meu lado? Queres-me fazer acreditar que em todos estes momentos quem estava ao meu lado era uma Thaís mudada? Que já não me ama? – levantou o seu tronco e sentou-se na cama, virado para mim.
- Não é isso que eu quero dizer – expliquei, agarrando-lhe uma mão – eu quero dizer que…em todos esses momentos tu conseguiste trazer a Thaís de volta mas…eu não quero voltar a ser essa Thaís…
- Não queres? Como assim não queres?
- Essa Thaís é muito leve, e ainda pensa que todos os problemas se resolvem num estalar de dedos. Essa Thaís é pouco madura e é demasiado egocêntrica. Essa Thaís é convencida – olhei para ele, vendo o espanto estampado no seu rosto – acha que qualquer homem a tem que desejar e acha que tem o namorado na mão e que nada nem ninguém pode afetar a relação deles só se for…a ex-namorada dele – vi um ligeiro sorriso no seu rosto, ele sabia bem de que Thaís estava eu a falar, ele sabia bem que no fundo eu era assim – mas aconteceu algo na vida dela, que por muito mau que tenha sido, a fez tornar em alguém diferente.
- Tu…
- Sim. Esta Thaís é bastante diferente. Tenho medo, muito medo e tenho principalmente medo…de ti – admiti.
- De mim? Porquê de mim? – perguntou num misto de confusão e espanto.
- Neste momento és o meu inalcançável. És quem eu quero mas ao mesmo tempo…a cada vez que dou um passo na tua direção é como que recebo um choque. Que me abala e me fere. Por isso tenho medo, e sei que neste momento por muito que eu queira o teu carinho o melhor é não ter. O melhor é ficar longe de ti – passei uma das minhas mãos pelo seu rosto – como eu te amo, Mario – sussurrei – como me custa ter que te afastar sem o querer…
Deixou cair a sua cabeça sobre o meu peito. Não o podia magoar. Não podia voltar para ele e depois não conseguir ser a mulher que ele precisa que eu seja.
- Eu sabia que isto era demasiado fácil. És primeira mulher que eu amo desta maneira e também estás a ser a primeira a fazer-me sofrer desta maneira…
- Desculpa… - pedi acariciando o seu cabelo. Desencostou a sua cabeça do meu peito e olhou-me – mas é melhor assim…
Levantou-se da cama e vestiu uns calções, deu a volta a cama parando depois à minha frente. Aqueles segundos em que nos olhámos com tamanha intensidade, fez-me acreditar que o nosso amor não morreria. Não pelo menos até eu conseguir voltar a ser a mulher que o Mario precisa.
Estendeu-me a sua mão que eu agarrei. Fez a força suficiente para eu me levantar da cama e o seguir no seu percurso até à cozinha, supus.
Parei na escada e o Mario virou-se para trás e olhou-me como que me perguntando porque tinha eu parado. Continuava a ouvir aquele barulho estranho. Ele tinha-me garantido que estávamos os dois em casa sozinhos.
- O que é que se passa?
- Ouve – pedi, esperando que ele fizesse silencio e também ouvisse o barulho.
Para meu espanto a Astrid apareceu ao fundo da escada. Afinal estava alguém em casa, porque é que ele tinha dito que não? Olhou-nos e sorriu. O seu sorriso fez-me sorrir também, como eu gostava daquela mulher.
- É a minha mãe – olhei-o. Sim, eu sei que é a mãe dele – que estava a fazer barulho, quero eu dizer. Agarrou novamente a minha mão e acabamos de descer as escadas – bom dia, mãe.
- Bom dia, Mario – depositou um pequeno beijo na testa da Astrid. Só naquele pequeno gesto, se via o quanto ele amava aquela mulher.
Olhei para ela, o Mario largou-me a mão e segui até à cozinha. Já não a via há algum tempo. Olhou-me de alto a baixo para depois me voltar a sorrir.
- Estás com boa cara – aproximou-se de mim e colocou uma das suas mãos na minha cara – sentes-te melhor?
- Muito melhor. Obrigada por tudo – abracei-a e não consegui evitar que algumas lágrimas me escorressem pelo rosto.
Talvez tudo tivesse uma razão para acontecer na vida. E assim sendo o distúrbio alimentar não aconteceu em vão. Havia uma razão que certamente eu iria descobrir.
- Muito bem! – a voz do Mario apareceu e larguei a Astrid, para depois olharmos as duas para ele – conseguiste roubar um abraço à enjoada da minha…amiga, a mim nem um beijo me deu!
- Mentiroso… - sussurrei, limpando as lágrimas e abrindo um sorriso.
- O Mario aprendeu a cozinhar o teu prato favorito! – disse a Astrid surpreendendo-me.
- Mãe, isso não era para dizer!
- Mas agora já disse! Vou começar a preparar o almoço – deixou-nos sozinhos e o Mario olhava-me provavelmente à espera que eu dissesse alguma coisa.
- Fico feliz – comecei, aproximei-me dele com prudência – espero vir a provar o meu prato preferido, feito por ti, em breve.
Afastou-me o cabelo deixando o meu pescoço nu e desprotegido. Aproximou-se ainda mais de mim com o meu consentimento. Colou os seus lábios ao meu pescoço fazendo-me tremer. Afastei-me dele. O facto de me sentir desejada naquele momento, atrapalhou-me.
- Vamos com calma… - sussurrei.
- Sim – deu-me um leve beijo na bochecha e depois olhou-me – vamos com calma…

O almoço decorreu calmamente. Descobrir que o Mario sabia que a sua mãe viria, apenas não me disse não sei bem o porquê.
Por mais que tentasse comer não conseguia. Não tinha fome, sentia-me enjoada. Por vezes sentia-me assim,…ainda.
- Tha, ainda não comeste nada…
- Mario, por favor – a Astrid olhou-o repreendendo-o – não a pressiones – ele baixou a cabeça e a Astrid olhou-me – não gostas, Thaís?
- Não, não. Está bom a sério…é só que…sinto-me um pouco enjoada.
- Queres sopa? Se calhar comes melhor a sopa…
- Não, não é preciso. Talvez só se fosse uma fruta, pode ser que consiga comer.
- Maçã – disse o Mario – ela adora maçãs.
A Astrid levantou-se da mesa, provavelmente buscar a fruta que eu tinha pedido.
- Desculpa – a mão do Mario pousou sobre a minha e olhei-o – eu só quero o teu bem.
- Eu sei, eu sei Mario – beijei-lhe o rosto, perto dos seus lábios.
- Volto para Munique amanhã e tu?
- Ainda não sei, acho que ainda tenho umas coisas a resolver por aqui. Não tenho tido as melhores atitudes tanto com a Halle como com a minha mãe. Depois disso voltarei para Munique.




- Oh meu Deus! – a Halle gritou e eu tremi. Olhei para ela. O sofrimento estava estampado no seu rosto. Estávamos na urgência da maternidade, estava na sentada numa cadeira de rodas enquanto não chegava a obstetra.
Estávamos em casa dela. Na verdade estávamos a preparar o jantar enquanto não começava o jogo da seleção com a Geórgia. Pouco tempo antes de terminarmos o jantar a Halle tinha sentido umas picadas, na realidade já as andava a sentir durante todo o dia mas não ligou.
- Thaís! Ele não pode nascer! – continuava a gritar, nunca a tinha visto neste estado. Agarrou-me o braço e puxou-me para junto dela. Baixei-me e ela olhou-me, parecia desesperada – ele só devia nascer em abril! Estamos em março!
- É quase abril, Halle – tentei acalmá-la mas parece que só fiz pior.
- O Marco não está aqui!
- Pois não, olha está ali a jogar – falei apontando para uma televisão que estava na parede.
- Thaís! – gritou novamente o que me levou a pensar que ser mãe era uma experiência bastante dolorosa – sinto a minha bexiga a rebentar e não é só a minha bexiga!
- Eu vou chamar uma enfermeira, talvez seja melhor.
- Não! – deteve-me agarrando o meu braço com alguma força – não me deixes por favor!
- Calma, eu não te deixo – assegurei. Uma enfermeira passou por mim mas quando a tentei chamar esta desviou-se atendendo outra grávida.
- Eles disseram que a minha médica vinha já mas eu não a vejo em lado nenhum! Oh meu Deus! – voltou a gritar, e a agarrar a minha mão com uma força enorme.
- Aqui está a minha grávida favorita – uma mulher jovem, alta e loira com a pele bastante branca aproximou-se de nós – parece que o Isaac quer nascer antecipadamente.
- Não pode ser, Keila! O Marco está ali! – apontou para a televisão e a rapariga olhou para lá.
- Não podemos atrasar isto, Halle. Se o Isaac quer nascer, o que podemos nós fazer? – colocou-se atrás da cadeira de rodas e começou a empurra-la – vamos, ainda quero fazer uma ecografia. Pode haver sempre a hipótese de ele ainda não estar na posição cefálica. A última vez que fizemos a ecografia não estava por isso…
- O que é que queres dizer com isso, Keila?
- Calma, futura mamã – acalmou-a, passando uma das suas mãos pelos ombros dela – vamos lá fazer a ecografia.

Acabei por me sentar num dos bancos esperando pela Halle. As últimas palavras que ouvi da sua obstetra assustaram-me. Podia o Isaac ainda estar na posição pélvica o que implicaria problemas. O meu conhecimento sobre gravidezes e partos é básico mas sabia que algo podia não correr bem.
- Thaís não é? – a tal Keila saiu da sala e olhou-me – a Halle tem falado muito de si. O bebé está na posição cefálica e o parto vai ser agora ela já tem uma boa dilatação e perguntou se queria assistir.
- Hum, sim claro – respondi um pouco atordoada.
- Então pode-se ir desinfetar e vestir, a enfermeira acompanha-a – falou apontado para uma senhora já com alguma idade que me sorriu.

- Eu estou aqui – agarrei a mão da Halle que respirava aceleradamente.
- Avisaste o Marco?
- Ele está a jogar Halle…
- Pois…sim é verdade – parecia um pouco desiludida.
- Mas deixei-lhe uma mensagem – assegurei, vendo um pequeno sorriso surgir no meio de tanta dor.
- E já estamos a ganhar – a obstetra entrou na sala de partos – golo de Marco Reus.
- Filho da mãe! – a Halle falou gritando em seguida, provavelmente uma contração. Agarrou-me em seguida a mão e voltou a gritar.
- Parece que está com muita pressa este menino.
O suor escorria-lhe já pela cara. Via-a a sofrer ali à minha frente. Enquanto a Keila lhe pedia para fazer força eu imaginava-me naquele lugar. A ter um filho. O meu filho. Algum dia iria isso acontecer?
Ouvi aquele choro intenso e o último grito da Halle.
- Que miúdo tão gorducho – falou uma das enfermeiras.
- Sai ao Mario – olhei para a Halle espantada, não percebia como com seguia ter aquele sentido de humor depois de passar por uma experiência tão dolorosa como aquela.
Uma das enfermeiras colocou o Isaac nos braços da Halle. Começou a chorar de uma forma que me fez chorar a mim. Era o filho dela. Um ser tão pequeno, inocente e tão precioso.
- Obrigada – agarrou a minha mão – obrigada por teres estado aqui ao pé de mim, neste momento tão difícil.



- É mesmo lindo, não é? – a Halle fez-me aquela pergunta assim que peguei no Isaac.
- É – admiti – mas prepara-te porque o Mario é estupido e vai dizer que parece um extraterrestre!
- Ai dele!
- Toma – a muito custo retirei o meu telemóvel do bolso e entreguei-lho para a mão – liga ao Mario e põe em alta voz, por favor.
Ela assim o fez e passado algum tempo, ele finalmente atendeu a chamada.
- Tell me something!
- I need to know… - cantei ao entrar na brincadeira.
- Then take my breath
- And never let it go
- Oh por favor! Parem de cantar! – pediu a Halle, levando-me a rir – já me estão a enervar!
- Ei! Calma Halle, essas hormonas estão todas alteradas.
- Ah pois estão, acabou de ser mamã é normal – informei – mas passando ao que interessa, sabes quem é que eu tenho nos braços? O Isaac! – não esperei que ele respondesse, e manifestei logo o meu entusiasmo.
- Sabes quem é que eu tenho à minha frente? Uma gaja mesmo boa!
- Faz boa viagem até ela mas não tropeces!
- Estás a fazer-me ciúmes porque estás aí com o puto nos braços e eu aqui!
- Ele é tão lindo, Mario.
- Sim, os bebés costumam ser lindíssimos quando nascem! Deve parecer um extraterrestre!
- Ai Mario Götze! O meu filho não parece nenhum extraterrestre! – manifestou-se a Halle.
- Calma Halle, ele daqui a uns meses já fica mais parecido com uma pessoa – ri-me, olhando para a Halle que estava com cara de poucos amigos – por acaso a minha mãe disse que eu era bonito quando nasci!
- A Astrid é uma querida sabes, amor? Porque de certeza que eras feio – atirei.
- Não era não!
- Demoram muito? – perguntou a Halle impaciente.
- Claro que demoramos muito, ainda nem apanhamos o voo para aí! Halle aguenta, nós vamos ainda chegar hoje e vamos conhecer o miúdo.
O menino mexeu as mãos e assustei-me com aquilo, não estava habituada a ter um bebé nos braços muito menos assim, recém-nascido.
- Halle, pegas nele? – pedi, passando-lhe o Isaac para os braços.
Tirei o telemóvel de alta voz e caminhei até à janela do quarto.
- Agora a verdade – pedi em voz baixa para a Halle não ouvir aquela conversa.
- Hum, não sei se ta digo.
- Anda lá, Mario.
- Dez minutos e estamos aí.
- E o Marco?
- Está meio parvo, nem fala nem nada.
- Se calhar está a ansioso para ver o Isaac.
- Talvez seja isso.
- Vou desligar e vou para junto da Halle, beijinho até já.
- Até já. Estou cheio de saudades tuas, amo-te.
- Eu também fofinho.
Desliguei a chamada e sentei-me novamente junto da Halle.
- É tão bom estarmos assim os quatro todos juntos, e agora somos cinco – falou sorrindo-me.

Acordei sobressaltada não reconhecendo o sítio onde estava. Aquele sonho tinha sido no mínimo estranho. Eu e o Mario estávamos juntos naquele sonho! Estávamos felizes. Abanei a cabeça, tirando todos aqueles pensamento. Ajeitei-me no cadeirão, estava no quarto da Halle.
Levantei-me e percorri o pequeno caminho em silêncio até à cama onde estava a Halle deitada. Junto dela estava o Isaac no berço. Era verdadeiramente encantador.
Senti uma mão na minha perna e virei-me de repente, assustada.
- Credo, que susto Halle!
- Pensavas que eu estava a dormir, não era?
- Era… - sentei-me na cama junto dela – estás um bocadinho inchada.
- Isso é a tua forma carinhosa de me dizeres que estou gorda?
- Não! Mas estás inchada na cara.
- Deve ser de alguma coisa que me deram para as dores. No meu estado normal saberia o quê mas estou demasiado cansada e dorida, dormiste pelo menos esta noite?
- Hum…não – admiti, sabendo que com ela não conseguia mentir – depois de sair daqui, falei um bocadinho com a minha mãe e troquei de roupa e aqui estou eu! Pronta para encher de mimos este Isaac!
- Queres-lhe pegar?
- Quero muito – olhei para o berço onde estava deitado a dormir, sorri ao vê-lo tão calmo.
- E estás à espera de quê?
- De coragem. É tão frágil e tão pequenino.
- Anda lá madrinha sexy, pega nele! – incentivou a Halle levando-me a rir.
- A madrinha nada sexy vai pegar nele – cheguei-me perto do berço e inclinei-me – mas…é tão pequeno!
- Já me estás a enervar! Se eu estivesse sem dores eu levantava-me e ia aí. Dava-te uma chapada e punha-te o Isaac nos braços!
- Acalma lá essas hormonas recém-mamã! – pedi – é o teu bebé, é tão precioso.
Ganhei finalmente coragem e peguei no Isaac. Tentei ter todos os cuidados com a sua cabeça e fui devagarinho até à cama da Halle, sentei-me junto dela e sorri ao ver como era bom tê-lo nos meus braços.
- É sossegadinho, pelo menos nas suas primeiras horas de vida foi – fiz algumas caricias na sua bochecha e não se mexeu – sabes se o Marco vem? Se já apanhou o avião para aqui?
- Não fofa, não sei de nada. Sabes bem que eu e o Mario não falamos muito e…
- Calma – interrompeu – calma, a sério.
- Queres que eu ligue ao Mario?
- Não é preciso! – aquela voz sobressaltou-me tanto a mim como à Halle. Olhámos de imediato para a porta. O Mario acabava de entrar com o Marco – chegámos!
- Fala baixo, Mario! – barafustou a Halle em baixo tom – o Isaac está a dormir!
- Desculpa Halle – pediu aproximando-se de mim – é bonito – falou, abrindo um sorriso.
- Basta não ser teu filho para ser bonito! – atirou a Halle.
- Olha que ela está toda cheia de piada! – o Mario riu-se ironicamente – não te doem as mamas?
- Doem! E muito! – respondeu.
- Então preocupa-te com as tuas mamas e deixa-me disfrutar deste momento com o teu filho. 
Dei-lhe algum espaço junto de mim. Sentou-se e colocou um braço em torno da minha cintura. Com a outra mão que estava livre mexeu na bochecha do Isaac e olhou-me.
- É tão pequeno, não é? – perguntou. Deu-me um beijo na bochecha e encostou a sua testa ao meu pescoço – eu sinto tanto a tua falta…
- Mario, agora não – sussurrei. Sentia um enorme desconforto na minha barriga. Tinha medo de dizer que também sentia a falta dele mas a verdade…, a verdade é que sentia e muito - Marco? – chamei. Estava perto da Halle, fazia-lhe algumas carícias na mão – está aqui o teu filho, acho que já é altura de o conheceres.
- O meu filho estava a causar aí um efeito em vocês…que decidi nem interromper – foi caminhando na nossa direção. Nem eu nem o Mario nos dignámos a responder àquela insinuação dele.
- Toma – levantei-me e com todo o cuidado coloquei o Isaac nos braços dele – apresento-te, Isaac Reus o teu filho.
O Mario agarrou a minha mão e arrancou-me daquele quarto levando-me para o corredor sem que eu me pudesse impor.
- Preciso de falar contigo – começou. Compôs o cabelo e olhou-me, sorrindo em seguida – sabes quanto tempo durou o nosso namoro?
- Creio que… - como é que é possível ter demorado tão pouco? – cinco, seis meses mas…porque é que estamos a voltar a esta conversa?
- Ok, não sei como é que vais reagir a isto mas eu acho que está na altura de dizer ao mundo o que se passou entre nós.
- O quê? Como assim o que se passou entre nós?
- Acho que está na altura das pessoas saberem a verdade. Que tu não me traíste nem eu te tratei mal.
- Nunca ligaste ao que as revistas dizem, Mario.
- Não fui só eu que fiquei mal visto com isto tudo, tu também ficaste.
- Não me interessa o que…
- Thaís! – interrompeu-me – tu amas-me?
- Sabes bem que sim, Mario.
- E vamos tentar que a nossa relação volte…a ser uma relação?
- Não sei…tem que ser com calma, sabes muito bem que ainda não me sinto bem e…
- Não é isso que eu te estou a perguntar. Eu estou a perguntar-te se queres tentar. Eu espero o tempo que for preciso por ti, entendes?
- Tu não mereces esperar esse tempo tudo por alguém que nem sabes se vai voltar a ser a pessoa que tu amas.
- Para! Por favor, não digas essas coisas – pediu agarrando as minhas mãos – eu vou ter uma entrevista amanhã e um dos assuntos vai ser a minha vida pessoal, certamente. Ainda por cima é em direto e… - fez uma pausa e encostou-se à parede – a pergunta é fácil, queres que eu diga a verdade sobre tudo ou continue a esconder este assunto?
Fiquei a olhá-lo por algum tempo. Dizer a verdade implicava muitas coisas, mas na realidade ia ser um peso a sair-me de cima. Iam-se acabar as mentiras e as especulações.
- A verdade, quero que digas toda a verdade Mario.