segunda-feira, 14 de abril de 2014

17º Capitulo - «- Sabes qual é o teu problema? É não saberes o que queres! »

Querida Thaís,

Não sei bem por onde começar e tenho um certo medo da tua reação a esta carta.
Começo por dizer que estou bem e viva. Sim Thaís, eu estou viva. É um pouco irónico a forma que arranjei para te dizer que estou viva. Perguntei-me várias vezes se devia escrever esta carta até que cheguei à conclusão que era o melhor, cheguei ao ponto em que a falta de uma família dói. Sinto tantas saudades tuas, das nossas discussões e de todas as nossas conversas.
Um dos motivos para a minha decisão foi ver-te, eu vi-te Thaís, tenho a certeza que eras tu. Foi uma sensação inexplicável voltar-te a ver ali, estás tão diferente tão mulher, estás tão linda.
Agora que te decidi escrever esta carta tenho que te contar tudo o que aconteceu e o porquê de ter desaparecido da tua vida sem avisar. Não sei se te conseguia contar cara a cara, acho que não era capaz, não tinha coragem para isso.
Sabes o quanto me arrependo de te ter deixado? A ti e aos nossos pais? Arrependo-me tanto. Estraguei toda a minha vida com uma pequena decisão.
Como sabes a droga tomava conta da minha vida já há algum tempo e eu fui fraca, demasiado fraca para lutar contra tudo. A mãe avisou-me tantas vezes para eu desistir daquela vida mas eu não o fiz, eu não o consegui fazer e desapareci, achei que era o melhor. Deixar-vos sozinhos foi a opção que tomei, se calhar não foi a certa mas naquela altura pareceu-me o mais adequado.
Eu refiz a minha vida, nestes quase cinco anos refiz toda a minha vida longe de tudo e de todos. Licenciei-me em jornalismo há quase 1 ano, e trabalho num jornal desportivo em Munique.
Talvez te perguntes como eu consegui refazer a minha vida e cá vou eu contar-te. Como te deves lembrar foi no verão de 2009 que me viste partir, tinhas os teus dezassete anos se não me engano. Fui para Munique em busca dos meus pais biológicos e eu consegui. Eu encontrei Thaís…encontrei os meus pais biológicos foi emocionante, conhecer quem me gerou mas depressa percebi a razão para me terem deixado. Nunca me procuraram e isso só evidencia o quanto insignificante sou para eles. Não têm qualquer tipo de amor por mim. Percebi rapidamente que o amor dos nossos pais é tão verdadeiro mas mesmo tão verdadeiro.
Tenho ao meu lado o homem da minha vida, quem me ajudou a passar por tudo, quem me deu casa, me acolheu e me ajudou a ser o que sou hoje. Sou feliz mas não completamente feliz porque não te tenho a ti não aos pais ao lado.
Nestes anos todos sempre tive bem presente na minha cabeça que o melhor a fazer era voltar mas tive sempre medo da vossa reação e eu quis refazer a minha vida por completo para agora poder voltar. Não voltar para junto de vocês porque a minha vida é cá em Munique mas sim voltar para vocês de coração.
Gostava tanto de falar contigo e com os pais, que percebessem o meu lado e que a desilusão não tomasse conta de vocês. Amava que me aceitassem de volta mas não sei se isso será possível.
Deixo-te o meu número e a minha morada e a partir de hoje esperarei um telefonema teu, sei que provavelmente vai demorar. Sei a pessoa que és e o tempo que demoras a aceitar mudanças na tua vida, principalmente pessoas novas na tua vida.
Amo-te tanto Thaís, és e serás sempre a minha irmã mais nova.
Beijos,

Cíntia

Congelei. Cada palavra ali escrita me partia o coração. Era ela…e ela estava viva e tão perto de nós. Tinha uma curiosidade enorme de a ver, de saber como ela estava mas por outro lado…este momento não é de todo o mais apropriado. Olhei para o lado e ali estava a minha mãe se calhar á espera que eu reagisse mas eu não conseguia. Esta perplexa, assustada e ao mesmo tempo com uma grande vontade de me soltar, de dizer tudo o que tinha dentro de mim, de exprimir todos os meus sentimentos. Respirei fundo e entreguei a carta à minha mãe deixando a sala e seguindo para a casa de banho. Lavei a cara tentando acordar de uma vez por todas para a realidade.
Quando voltei a sala reparei nas lágrimas que escorriam pela face da minha mãe. Aproximei-me dela e depositei um pequeno beijo na sua bochecha. Peguei na carta que estava poisada em cima do sofá e arrumei-a na minha mala.
- Vou sair mãe, eu já volto. – avisei-a.
Saí sem destino mas no fundo sabia bem até onde é que eu iria.

- Thaís! – exclamou o Felix quando me abriu a porta.
- Olá, a tua mãe está? – perguntei esperando por uma resposta positiva.
- Está lá em cima a limpar o quarto do Mario, vai lá. – disse-me deixando entrar. O nome dele…por momentos pensei que o tempo tivesse parado.
Subi aquelas escadas que de desconhecidas não tinham nada e fui até ao quarto dele. Entrei receosa e para meu espanto a Astrid não se encontrava ali. Mesmo assim entrei…devagar procurando recordar-me de tudo. Involuntariamente passei a minha mão por aquela cama sentando também nela, fechei os olhos e por momentos parecia que nada tinha mudado que a qualquer momento ele poderia entrar ali, beijar-me como sempre fazia sem se preocupar com o resto do mundo, poderia entrar por aquela porta chamar-me Tha e mandar uma daquelas bocas foleiras que nos fazem começar aquelas discussões que acabam sempre bem…mas não, nada disso iria acontecer, porque tudo mudou e nada voltará a ser como antes.
Foi um barulho que me despertou, olhei para a porta e vi a Astrid que em pequenos passos veio até mim, sentou-se junto a mim e olhou para mim com aquele sorriso tão sincero.
- Saudades? – perguntou colocando a sua mão em cima da minha.
- Nem a Astrid imagina quantas. – sussurrei.
- A tua mãe ligou-me ontem, ela anda preocupada contigo.
- Não consigo falar com ela, eu falava mas não consigo.
- O Mario ligou-me no outro dia, no dia em que estiveste em Munique.
- Já nem sei se fiz bem, se fiz mal…eu não sei, está tudo uma confusão.
- Se vocês estão destinados um ao outro não te preocupes porque vai haver algo que vos vai juntar.
- Começou tudo de uma forma estranha, quase como que uma brincadeira de crianças que virou uma coisa bem séria que eu agora não faço a mínima ideia de como resolver.


***

Janeiro terminou, foi talvez o mês de mais mudanças na minha vida. Fevereiro chegou frio, e acredito que não será muito bom para os meus lados. Aos poucos fui aceitando o passado da Halle, afinal é apenas o passado dela apesar de me ter escondido tudo aquilo…mas ainda me sinto incapaz de falar com ela, acho que não vou conseguir ser a mesma Thaís, nem com ela nem com ninguém. Criei um muro à minha volta para me tentar proteger de tudo e de todos. A única pessoa que tenho conseguido falar sobre tudo é a Astrid algo estranho já que é a mãe dele mas parece que isso não interessa, compreende-me de uma forma simplesmente espetacular.
Com Fevereiro, chegou dia doze, o aniversário do Felix que me convidou para a festa dele esta noite, tentei fazer de tudo para escapar a ela já que provavelmente o Mario estará lá e quem sabe acompanhado mas decidi que ia fazer isto pelo Felix pela nossa amizade que temos criado.
Despachei-me no fim de jantar e rumei a casa da Astrid. Tentei-me preparar para o que se podia passar naquela noite…mas a verdade é que nunca estarei preparada para voltar a encontrar o Mario.
Voltar a entrar naquela casa traz-me lembranças…tantas lembranças mas todas boas, aliás maior parte dos momentos que passei com ele são boas memórias.
Dei os parabéns ao Felix e fui até à cozinha ter com a Astrid…sabia que ela estaria lá. Cumprimentei-a e fiquei junto dela.
- Estás bem? – perguntou-me.
- Dentro dos possíveis. – respondi-lhe.
A Astrid permanecia encostada àquela bancada e eu sentei-me numa cadeira virada para ela e de costas para a porta. Era impossível não me lembrar do Mario enquanto falava com ela, o Mario tinha o olhar da Astrid, eu via nela o olhar dele, aquele olhar meigo e sincero.
- Mãe eu… - aquela voz, que saudades de ouvir aquela voz.
Olhei para trás instintivamente como toda a gente o faz quando ouve alguém a falar.
Deparei-me com ele ali, olhei-o com uma intensidade imensa, ele tinha parado de falar e também ele me olhava.  Aquele momento em que os nossos olhares se cruzaram parecia que nada mais importava, o mundo parou ali…para nós. Depressa percebi que ele não estava sozinho, Pela primeira vez via Ann à minha frente e via o Mario com a sua mão entrelaçada com a dela, vê-lo assim de mão dada com alguém que não era eu incomodava-me, incomodava-me vê-lo ali à minha frente sem poder fazer nada.
Voltei a olhar para a Astrid tentando conter todas as lágrimas, tentando conter toda a emoção.
- Eu cheguei. – completou, passado bastante tempo.
- Já foste ter com o teu irmão? Ele tinha algo para te dizer… - disse a Astrid e de imediato percebi que o queria afastar dali.
A Astrid baixou-se até mim, olhava-me de uma forma meiga como que perguntando como eu estava.
- Bem? – perguntou-me passando-me a mão pelo rosto limpando uma lágrima.
- A precisar de ar. – respondi levantando-me – obrigada.
- Não tens de agradecer.

(Mario)

A casa estava cheia de gente mas havia só uma pessoa que me interessava naquele espaço. Não conseguia tirar os da porta da cozinha, a qualquer momento ela podia sair por aquela porta e voltar a causar aquelas sensações todas em mim.
- Estás bem? – perguntou-me o Felix.
- Ótimo. – respondi não prestando muita atenção ao que dizia.
- Não parece nada.
Vi finalmente a Thaís sair daquela porta ia em direção à porta de trás, será que se ia embora?
- Felix, nós já falamos que eu já venho. – disse antes de começar a caminhar em direção à porta.
 - Thaís? – chamei quando abri a porta e a vi a afastar-se.
Olhou para trás e podia apostar que aqueles olhos demonstravam tudo, a mágoa, a raiva e não tarda muito estaria a chorar porque não consegue aguentar tudo dentro dela por muito tempo.
Corri um pouco para chegar junto dela sem ela poder fugir. Estar assim frente a frente com ela novamente era algum bom se não fosse nestas circunstâncias.
- Eu…- tentei começar.
- Mario não vale a pena, a sério podes parar por aí, e sabes se calhar o problema é mesmo esse! Tu, tu e tu!
- O que queres dizer com isso?
- Que não vale a pena! Percebe! – atirou de uma forma agressiva – tens tudo o que queres! Tens a tua família, tens trabalho e tens uma namorada, o que é que queres mais? Diz-me!
- Quero-te a ti! É assim tão difícil de perceber?
- Sabes qual é o teu problema? É não saberes o que queres!
- Eu sei o que quero!
- Não sabes!
Aquela conversa antes tímida e até difícil, tinha-se tornado numa discussão, numa corrida em quem magoava mais.
- Se soubesses o que querias não estavas aqui a dizer que me querias a mim e estavas com ela! – disse desta vez com uma voz calma sentia a mágoa naquela voz que agora estava frágil.
Vê-la assim partia-me o coração e perceber que a estava a magoar ainda mais. Saiu dali e percebi logo que entrou novamente para dentro. Ir atrás dela? Não ia valer de nada.

(Thaís)

Controlei-me para voltar a entrar em casa sem lágrimas no rosto e recomposta. Fui até ao encontro do Felix que estava perto de alguns amigos.
- Felix, eu tenho que me ir embora, diverte-te e diz à minha mãe que eu tive de ir.
- Mas passasse alguma coisa? – perguntou.
- Não, não se passa nada de mais – disse dando-lhe um beijo na bochecha e saindo daquela casa.
Entrei no meu carro quase em choque com tudo, mirei as minhas minhas mãos e reparei como tremiam, estava num estado horrível…nunca pensei ficar assim por causa dele.
Peguei no telemóvel e percorri a lista telefónica sabia que neste momento só uma pessoa me poderia ajudar.
- Preciso de ti… - sussurrei quando percebi que atendeu.

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Olá (:
Não totalmente satisfeita mas aqui está.
Espero as vossas opiniões.
Beijos, 
Mahina 

6 comentários:

  1. Olá :)
    Acho que tu não tens bem a noção do quanto isto me faz bem. São capitulos assim, histórias assim, escrita assim que me fizeram ficar fascinada pela escrita. Sei das tuas inseguranças mas só te digo: não deviam existir. O capitulo está carregado de sentimento, de emoção, está super bem escrito, os detalhes estão cá todos...está perfeito.
    E este fim? Só se eu fosse muito burra e lenta é que não percebia quem era do outro lado da linha...e espero que no próximo capy venha muita baba e ranho mas porque estão de volta.

    Espero o próximo (e queria tanto que fosse rapidinho!!!!)
    Besitos.
    Ana Patrícia.

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  2. Olá :)
    Para começar...amei este capitulo :)
    A Thais tem uma irmã que se meteu em maus caminhos?...nunca pensei :O
    Espero que a Cinthia se aproxime da família :D
    Que discussão do caraças entre o Mário e a Thais...vai lá vai...espero que eles voltem a juntarem-se...destesto vê-los assim separados e infelizes :/
    Espero pelos próximos capítulos sff bjs

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  3. Olá!!
    E estão todos lidos os capitulos atrasados!
    Cada capitulo mais lindo e perfeito que o outro!
    A Thais ter uma irma é que eu não estava nada à espera mas se for bom espero que se voltem a aproximar!
    Agora aquela discussão entre ela e o Mario é que foi muito ma. Gostava tanto de vê-los juntos de novo! Mas ele tem de despachar a Ann de uma vez por todas!
    Suspeito de quem seja a pessoa a que a Thais ligou mas já estou à espera do proximo para saber!
    Beijinhos.
    Sofia.

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  4. Fantastico adorei adorei adorei.
    Quero o proximo rapido.bjs

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  5. Buenos dias!
    Bem que reviravolta... A Thais tem uma irmã adotada? Ou melhor tinha e ela fugiu depois de ter tido problemas com a droga? bem, isto eu nao esperava.
    Ja o reencontro com o Mario eu esperava (no sentido de desejar que isso acontecesse), mas nao foi nada como eu queria. Joder (palavrão em espanhol, desculpa), eles nao vao acertar-se assim tao cedo, pois nao? E o Mario tem alguma culpa. Sim, porque se ele quer a Tha que dê um pontape no rabinho da outra!
    E agora a quem ligou a Tha? Ao Mario nao foi! Será à tia toda fixe que ela tem? Ou à irmã?
    Espero para ver!

    Besito
    Ana Santos

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